ALEX ALVES FOGAL

CEFET-MG

Vanguardismo, Formalismo e revolução: a questão do futurismo na Rússia

Palavras-chave:

Vanguardismo, Futurismo, Formalismo, Revolução russa

Resumo:

O futurismo na Rússia possui laços estreitos com a revolução proletária de 1917. Os poetas futuristas, encabeçados pela icônica figura de Vladimir Maiakóvski, buscaram se posicionar como adversários incondicionais da burguesia e do tradicionalismo, o que os alinhava a alguns pressupostos importantes para o movimento revolucionário. Algo semelhante ocorria em relação ao formalismo eslavo, representado por críticos como Roman Jakobson e Victor Chklovsky. Os estudiosos formalistas enxergavam no futurismo a realização de seus anseios teóricos e estéticos. O suposto descompromisso com a comunicação direta entre artista e espectador e a ruptura com a tradição artística anterior – principalmente a simbolista – eram bem vistos pelos formalistas, que adotaram os futuristas como modelo de concepção artística. Entretanto, é possível conciliar um projeto estético revolucionário e verdadeiramente vanguardista como o endosso formalista? Leon Trotsky, entre os anos de 1922 e 1923, em sua obra Literatura e Revolução, analisa o movimento futurista a partir de suas relações com os dois fenômenos mencionados e nos oferece um contundente ponto de vista.  Trotsky consegue entendê-lo em suas proporções históricas objetivas, para além dos desejos de seus integrantes ou da perspectiva geral da recepção crítica. Ele argumenta que o movimento ganhou densidade quando seus intuitos se encontraram com os da revolução de 1917, entretanto, a sua ânsia de renovação não eliminava o “atavismo de seus rumores e pontos de vista”. Ou seja, apesar de sua feição inegavelmente progressista, o ardor juvenil pelo escândalo ainda o conectava com os movimentos artísticos burgueses, não passando de um resquício de Romantismo. Consequentemente, o direcionamento revolucionário dos futuristas acabava reduzido a uma postura boêmia e descompromissada, limitando-se a brandir os punhos “vagamente” e fazer barulhos nos cafés, passando longe de temas como a divisão da propriedade ou a garantia dos direitos dos proletários. Isso equivale a dizer que, no fim, Trotsky entendia que o espírito revolucionário da escola de Maiakóvski era restrito, e isso era denunciado pelo apreço que os formalistas dedicavam a eles.  O objetivo desse estudo é partir da formulação de Trotsky para verificar em que medida o futurismo e sua postura avant garde incorporam as condições e contradições de seu tempo.

ALEXANDRE MONTAURY BAPTISTA COUTINHO

PUC-Rio

António Lobo Antunes e a escrita sismográfica

Palavras-chave:

António Lobo Antunes, Ficção portuguesa contemporânea, Literatura e Política

Resumo:

A intervenção proposta tem como objetivo destacar os impulsos de captação e registro de ambiências na ficção António Lobo Antunes. A partir da análise de investimentos formais presentes em sua obra, pretende-se examinar algumas interpretações panorâmicas, inscritas em sua obra de modo a captar específicas vibrações do real.

ANA CRISTINA JOAQUIM

USP

Será o grupo do Café Gelo uma vanguarda?

Palavras-chave:

Helder Macedo, Herberto Helder, Mário Cesariny de Vasconcelos

Resumo:

Trata-se de sondar a atuação de alguns dos artistas (plásticos, mas sobretudo poetas) frequentadores do Café Gelo que, entre os finais da década de 50 e início da década de 60, se reuniram em torno de uma comum inquietação que incidia, simultaneamente, sobre a ditadura vigente e sobre as convenções artístico-culturais de então. Com especial ênfase para as figuras de Helder Macedo, Herberto Helder e Mário Cesariny de Vasconcelos, a proposta da comunicação é questionar o estatuto do agrupamento, de modo a problematizar a noção de vanguarda, termo frequentemente utilizado para se referir a este acontecimento artístico-literário.

ANA PAULA DE BARROS JORGE

COLÉGIO DE SÃO BENTO

A explosão das vanguardas sob o olhar dos jovens de hoje

Palavras-chave:

Vanguardas, Ensino de literatura, Imagem

Resumo:

A matéria é a Literatura do século passado, o público é o jovem deste tempo. Por um lado, sabe-se bem, os movimentos de vanguarda do início do século XX provocaram importante ruptura com a tradição cultural do século XIX, modificando as manifestações artísticas, entre elas a literatura. Por outro lado, chega-se, nos estudos literários do início da terceira série do Ensino Médio, aos tempos que precederam o Modernismo. Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo. Movimentos observados em História da Arte, obras visitadas, artistas a frente do seu tempo expressam em cores e formas novas a ideia de “marchar na frente”. Em Literatura, a quebra da sintaxe, a força das expressões inusitadas e a temática até então distante dos textos conhecidos despertam curiosidade e, de certa forma, encantamento. A ideia de vanguarda, de ruptura da tradição aproxima as observações e as aulas das inquietações próprias dos dezessete anos, fase de fascinantes explosões e de saudáveis rebeldias. Desse modo, planejou-se um trabalho que pretendia não só unir literatura e outras artes, como também aplicar os conhecimentos abordados em sala.  Inserido no evento I Semana da Poesia do Colégio de São Bento, o desafio proposto aos estudantes foi o de juntar a um poema uma imagem, para construir, no espaço-tempo de cinquenta minutos diante da tela do computador, um slide que representasse a visão – ou leitura – do texto escolhido. Assim, as duplas de estudantes organizaram e montaram livremente as suas telas. Em seguida, em decisão coletiva, cada turma selecionou e sugeriu a trilha sonora que melhor acompanhasse a projeção da sequência de poemas do grupo. Slides expostos, visitados, vistos e revistos durante o evento da escola. Seguimos com os estudos e com os textos, com a certeza de que conhecer a revolução artística do século passado dialoga com as reflexões de quem vai, neste século XXI, mais uma vez, ressignificar o futuro. Ensinar literatura não é, nem nunca foi, estudar autores e obras, ensinar literatura é permitir um apropriar-se de um saber-sentido no sabor da linguagem.

ANDRÉ CORRÊA DE SÁ

UFSCar

Uma ruga no tempo: ritmo e simultaneidade em crônicas de António Lobo Antunes

Palavras-chave:

António Lobo Antunes, Ritmo, Simultaneidade

Resumo:

Nesta comunicação proponho oferecer uma nova descrição do conceito de “presente expandido” que a crítica tem utilizado para aproximar a narrativa de António Lobo Antunes dos movimentos de vanguarda literária, mostrando que essa topologia específica pode ser interpretada como sintoma da emergência de um cronótopo não historicista na ficção do autor português.

ANDRÉ LUIZ DO AMARAL

UNESP/ SJRP

FUTURISMO E EXPERIMENTALISMO: CONTINUIDADE E RUPTURAS

Palavras-chave:

Experimentalismo, Futurismo, Ana Hatherly, Melo e Castro

Resumo:

Apesar de disposto a realizar uma leitura atualizadora da tradição, o movimento da Poesia Experimental Portuguesa (PO-EX) mantém com o Futurismo uma relação tensiva: ora compartilhando de temas e utopias em comum, como o deslumbramento diante das novas tecnologias, presente já no Manifesto técnico da literatura futurista, de F. T. Marinetti (1912), e no Manifesto da arte mecânica futurista, de Ivo Pannaggi e Vinicio Pladini (1922); ora se apropriando de autores futuristas como Álvaro de Campos, Almada Negreiros, etc.; ou, pelo contrário, reafirmando categoricamente, pelo menos em teoria, seu afastamento do movimento inaugurador do modernismo na literatura portuguesa.  Esse último traço caracteriza a posição original que a PO-EX pretende ocupar na série literária, nomeadamente a de uma vanguarda autêntica e relativamente independente das suas antecessoras. Por outro lado, esse aspecto tão marcante faz pensar se o Experimentalismo não é, em Portugal, uma expressão mais de retaguarda que de vanguarda, uma vez que, como sugere Hans Magnus Enzensberger sobre os experimentalismos em geral no ensaio “As aporias da Vanguarda” (1962), as neo-vanguardas da segunda metade do século XX, ditas experimentais, se apoiam e se configuram naquilo que  já havia sido proposto e realizado, não só pelo Futurismo, mas também pelo Dadaísmo e pelo Surrealismo. Ademais, cabe pensar, ainda com Enzensberger, se o efeito do experimentalismo não é o avesso das suas pretensões, isto é, o  de uma reprodução inconsciente ao invés de uma inovação consciente dos padrões estéticos aceitos pela norma vigente. Nossa hipótese é de que as diferenças entre o Experimentalismo e o Futurismo repousam no contrapeso que a tradição exerce em relação à visão do futuro. O Futurismo, pelo menos à portuguesa, é a vanguarda por excelência, talvez porque a menos atrasada em relação ao restante da Europa, e aquela cuja capilaridade mais se estende ao longo do século. A reação do Experimentalismo ao Futurismo é por isso mesmo ambígua, porque é impossível ultrapassá-lo sem atravessá-lo. Se por um lado Pessoa e a geração d’Orpheu são seus mestres, é contra eles que o movimento experimental pretende demarcar seu lugar. De modo a explorar os entremeios e desdobramentos da questão proposta, este trabalho se ocupa preferencialmente de textos dos dois principais teorizadores da PO-EX, Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro, delineando também nuances da atividade poética de cada um deles.

ANÉLIA MONTECHIARI PIETRANI

UFRJ

Gilka Machado, poeta moderna

Palavras-chave:

Gilka Machado, Poesia Feminina, Política de gênero

Resumo:

Partindo da leitura interpretativa do poema “Lépida e leve”, de Gilka Machado (1893-1980), publicado no livro Meu glorioso pecado, de 1928, esta comunicação se propõe a examinar os traços imagéticos, estilísticos e vanguardistas que apontariam, na poética de Gilka, para a poesia do Modernismo. Além disso, busca-se pôr em relevo asrelações político-textuais e político-contextuais dos estudos literários,ao estudar o poema referido como reflexão sobre o papel social e cultural das mulheres, bem como sobre a consciência poética que se abre à política da imaginação e da resistência, numa poesia em que não se dissociam a estética e a ética.

ÂNGELA BEATRIZ DE CARVALHO FARIA

UFRJ

LOBO-ANTUNES – LIMITES DA ESCRITA OU COMO DAR CORPO AO PASSADO RETIDO NA MEMÓRIA?

Palavras-chave:

Ficção portuguesa contemporânea século XXI, António Lobo Antunes, Da natureza dos deuses, Para aquela que está sentada no escuro à minha espera

Resumo:

A partir das reflexões críticas do próprio autor nas entrevistas concedidas e na crônica “Receita para me lerem”, de Georges Didi-Huberman (A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg), de Jean Starobinski (A melancolia diante do espelho: três leituras de Baudelaire) e de Maria Alzira Seixo (As flores do inferno e jardins suspensos. Vol. II de Os romances de António Lobo Antunes), entre outras, pretende-se comentar a gênese e a singularidade do processo criativo de António Lobo Antunes que se caracteriza pelas poéticas da incompletude, do desprendimento, da descontinuidade ou da indecidibilidade e da lateralização. Situadas em situações-limite, as vozes fragmentadas que se fazem ouvir, através de monólogos ou solilóquios, em Da natureza dos deuses (2015) e Para aquela que está sentada no escuro à minha espera (2016) buscam responder às seguintes questões: Como dar corpo ao passado retido na memória real ou inventada? Não seríamos nós “acordes dissonantes em relação à música do mundo”? Não estaríamos sempre “caminhando como uma casa em chamas”, agonicamente,  prestes a arder ou a se dissolver? “ Quais as imagens obsedantes e sobreviventes,  que relampejam em nossa interioridade, plena de superposições de tempos e espaços díspares e distópicos que se esgarçam e se fundem? Quais as estratégias discursivas e temáticas, utilizadas pelo autor, que permitem a interrupção temporária da melodia melancólica, e tornam-se passíveis de deflagrar o riso dos leitores?   Imersos, de corpo e alma, na leitura dos romances antunianos, os leitores identificam-se com esses indivíduos que possuem uma identidade estilhaçada e que, ao olhar-se ao espelho, descobrem-se outros e atores de si mesmos, o que configura, na cena literária do século XXI, uma Estética do Espelhamento, do Ensimesmamento, do Infortúnio e da Teatralidade.

ÂNGELA MARIA DIAS

UFF

UM ANTROPÓFAGO CONTEMPORÂNEO: AS PERSONAS E AS PAIXÕES FICCIONAIS DE SILVIANO SANTIAGO

Palavras-chave:

Persona ficcional, Antropofagia, Assinatura

Resumo:

O presente texto pretende desenvolver uma reflexão sobre dois dos romances recentes de Silviano Santiago: Heranças (2008) e Machado (2016). Já estudado por suas incursões pela ficcionalização de Graciliano Ramos depois do cárcere, no Em liberdade (1981), e da viagem de Antonin Artaud ao México, no Viagem ao México (1995) o escritor agora aventura-se na celebração do universo de Machado de Assis. Assim, no romance de 2008, o seu narrador-personagem, Walter, assimila uma dicção cínico-irônica para narrar desinibidamente a própria vida, numa espécie de atualização da voz provocativa e derrisória do inconfundível escritor-defunto Brás Cubas. Por sua vez, a narrativa de 2016, numa mistura entre romance, ensaio e biografia, e crítica de costumes, dedica-se a rever os últimos anos do mais aclamado romancista da literatura brasileira, em seu ocaso de melancólica viuvez e crises nervosas.  A abordagem se propõe a enlaçar a perspectiva da assinatura como identidade móvel e em constante processo de mutações com o legado da antropofagia em que a apropriação criativa da contribuição do outro celebra um horizonte compartilhado como ponto de fuga.

ANNATERESA FABRIS

USP

Um futurismo singular: Menotti Del Picchia

Palavras-chave:

Modernismo, São Paulo, Futurismo

Resumo:

Apresentado como uma reação do pensamento "contra a modorrenta água parada da arte senil e agonizante da velha escola", o futurismo de Menotti Del Picchia em quase nada se assemelha com o movimento fundado por F. T. Marinetti em 1909. Várias motivações parecem estar na base dessa domesticação do movimento italiano: 1 - o desconhecimento de seus desdobramentos depois de 1914-1915; 2 - a adesão às ideias do grupo de "Lacerba", que circulavam na capital paulista através de livros de Giovanni Papini e Ardengo Soffici; 3 - a definição de um futurismo congenial à modernidade de São Paulo, feito de "espontaneidade", "máxima distensão da personalidade" e, por isso, contrário "a mimetismos, a decalques servis".

ANTONIO CARLOS SECCHIN

UFRJ / ABL

João Cabral em trânsito

Palavras-chave:

João Cabral de Melo Neto, Modernismo – Geração de 45, Concretismo

Resumo:

Consideração da obra de João Cabral de Melo Neto a partir de suas relações com o Modernismo e  a Geração de 45, e de sua projeção no Concretismo e na poesia contemporânea.

ANTONIO RICARDO RIBEIRO CIDADE

UFRJ

Mário de Sá-Carneiro e A confissão de Lúcio: o sujeito na vanguarda do vir a ser

Palavras-chave:

Vanguarda, Subjetividade, Outramento, Homossexualidade, Existencialismo

Resumo:

Nossa comunicação pretende investigar o que faz um livro, escrito por um “falhado”, há cem anos, chegar ao século XXI na lista das grandes obras da literatura universal, nos inquietando profundamente em torno daquilo que nos constitui enquanto sujeitos. Podemos ter certeza de quem somos? É possível ser um? A realidade é verossímil? A ousadia ficcional de A confissão de Lúcio representa o modernismo em sua fase inaugural nas letras portuguesas. As estratégias discursivas trazem o tema da incompletude humana vivida por um homem situado historicamente no início do século XX, herdeiro do decadentismo de fin-de-siècle, com sua crítica aos valores burgueses e sua tendência para a evasão, criando mundos quiméricos através de uma imaginação sensual a serviço de uma técnica literária requintada e muito pessoal.  A confissão de Lúcio é um projeto estético e ideológico ao mesmo tempo. Ao ressaltar o caráter de inutilidade da sua obra, o artista está se insurgindo contra uma visão utilitária da obra de arte, que subordinava a arte à ciência, e era representada pelos textos naturalistas. No mundo criado por Mário de Sá–Carneiro o sexo burguês, natural, utilitário e procriativo, é sempre repugnante. Já o sexo pelo gozo em si, o sexo psíquico, espiritualizado, é sempre exaltado e procurado. No livro, a quebra do interdito da homossexualidade é resultado de um outramento do sujeito. Frente a um mundo em constante mudança, paradoxal e hostil, o sujeito precisou de uma identidade que correspondesse a essa nova realidade. Inaugura-se aí a fragmentação da representação unitária da identidade como uma das questões paradigmáticas da ficção portuguesa.  E em A confissão de Lúcio essa fragmentação identitária do sujeito resultou na criação de personagens que, quase todos, são desdobramentos de seu autor. É como se Mário de Sá-Carneiro se mirasse em um espelho quebrado e visse várias representações de si próprio nos estilhaços. Assim, cada estilhaço é um personagem, mostrando, como num quadro cubista, um ângulo da personalidade do autor. Por seu próprio jogo de espelhos, intrínseco à construção do tecido ficcional, a obra de Mário de Sá-Carneiro é marcada por uma forte intratextualidade, facilmente verificável na comparação entre seus poemas, contos e novelas.  Nossa comunicação traz, com o intuito de corroborar os pontos de vista apresentados, a contribuição em forma de citação das autoras Cleonice Berardinelli, Teresa Cristina Cerdeira, Antonio Quadros e Rafael Santana.

BÁRBARA DEL RIO ARAÚJO

UFMG / CEFET-MG

A tendência impressionista na obra Canaã, de Graça Aranha

Palavras-chave:

Vanguardas no Brasil, Impressionismo, Canaã

Resumo:

Esta comunicação pretende mostrar como o desenvolvimento da representação sensorial e da construção metafórica aponta para uma tendência impressionista na obra Canaã (1902). O objetivo é revelar que, assim como seu autor Graça Aranha, o romance estava em sintonia com as primeiras vanguardas e a discussão sobre o Brasil. Nesse aspecto, é possível dizer que o primeiro livro do escritor maranhense, em consonância com seus escritos filosóficos A estética da Vida e O Espírito moderno, configura um processo de renovação estética e, em função disso, desenvolve uma dialética entre os aspectos nacionais e o modelo europeu. Diante de um processo de adaptação, a introdução da vanguarda impressionista nos ofereceu um aprofundamento das questões brasileiras, sendo, portanto, autêntica. A fortuna crítica, especificamente José Carlos Garbuglio e José Paulo Paes, percebeu traços vanguardistas na narrativa, entretanto se limitou a associar essa característica ao pré-modernismo. Além disso, para esses estudiosos e também para Roberto Schwarz, o traço modernista acabou por abordar o país de modo não realista, fazendo padecer a construção estética, analisada como desequilibrada. A intenção desse trabalho é partir dessa revisão bibliográfica para mostrar que a obra apresenta, sobretudo na construção cênica, um apelo impressionista revelando uma tendência cosmopolita e também local, aprofundando a discussão sobre os impasses da realidade nacional. Canaã exibe, em seu plano central, o embate entre os personagens Milkau e Lentz: enquanto o primeiro vê na condição de imigrante uma maneira de desenvolver seus ideais humanitários, encarando o Brasil como utopia de uma nova civilização, união de todas as raças, prelúdio de liberdade e amor; o outro perpetua a perspectiva da exploração e, embebido de um ranço naturalista, prejulga as raças e vê de modo fatalista a condição do atraso nacional. O debate entre essas ideias se desenvolve frente ao cenário e às descrições sensoriais proporcionando a referência ao Brasil. Assim, ainda que o desdobramento das ações aponte para o malogro dos ideais, enfatizando as mazelas da burocracia judiciária, a manutenção do casamento pelo interesse econômico e a crueldade, obliterando as coerções do afeto, são os aspectos impressionistas que afirmam o ideal de renovação do país, como se pode perceber na fuga de Milkau e de sua companheira Maria, ao final do enredo.

BARBARA GORI

Università di Padova

Portugal Futurista e a vanguarda florentina de Lacerba

Palavras-chave:

Futurismo, Lacerba, Portugal Futurista

Resumo:

O objetivo desta comunicação é evidenciar e aprofundar os elementos do futurismo florentino da revista “Lacerba” que encontramos, mutatis mutandis, na revista “Portugal Futurista”. O movimento futurista português iniciou, oficialmente, a sábado 14 de abril de 1917, data «da tumultuosa apresentação do futurismo ao povo português», realizada no Teatro República de Lisboa, com o “serão” de José de Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor. Em boa verdade, a moda dos serões futuristas iniciara sete anos antes, em 1910, na Itália, propondo-se como manifestações propagandistas do movimento, com declamações de poesia e apresentação de ideias; só sucessivamente essas ideias tocarão os campos da arquitetura, da pintura, da música e do baile. Não obstante os futuristas já tivessem encenado nos teatros italianos inúmeros serões provocadores, em finais de 1913, precisamente a 12 de dezembro, no Teatro Verdi de Florença, teve lugar uma manifestação que passou para a história como a “batalha de Florença”, devido ao tumulto que aí se deu. Segundo fontes da época, estariam amassados no Teatro cerca de 2000-7000 espetadores e bastou a aparição dos futuristas em cena, por volta das 21h30 (eram os poetas que gravitavam à volta da revista “Lacerba”), para fazer desencadear o “inferno”, nas palavras do pintor Ardengo Soffici. Pois bem, se analisarmos atentamente o resumo do serão português no Teatro República, publicado em seguida na revista “Portugal Futurista”, este aparece como uma repetição, em terra lusitana, do serão florentino de dezembro de 1913: poetas futuristas que expõem o seu conceito de arte, acompanhado pelas “palavras livres” da poesia futurista. E se, por um lado, a análise do texto nos faz apreciar as evidentes afinidades existentes entre os dois serões, por outro, mostra-nos também quanta distância há entre as duas manifestações, não só em termos temporais (quase quatro anos, dos quais mais ou menos três com grande parte da Europa em plena Guerra Mundial), como também em termos de impacto cultural e social, voltando a propor um evento que chocara as “pessoas de bem” das capitais europeias, mas quatro antes, num mundo não tocado ainda pela enfermidade da guerra. Portanto, o Futurismo português “nascente” paga por um atraso cronológico nefasto, ao se apresentar fora do prazo máximo.

BEATRIZ RESENDE

UFRJ

Lima Barreto e o Futurismo

Palavras-chave:

Lima Barreto, Modernismo, Crônica

Resumo:

Em 1922, os modernistas de São Paulo reconhecem no escritor carioca Lima Barreto características modernistas e simpatizam com suas ideias socialistas. Sérgio Buarque de Hollanda tenta mediar uma aproximação e entrega a Lima Barreto exemplar da revista Klaxon. Anti –americanista ferrenho, Lima Barreto responderá com a crônica “O Futurismo”, bastante satírica.

BERNARDO PARETO MILLER

COLÉGIO DE SÃO BENTO

A explosão das vanguardas sob o olhar dos jovens de hoje

Palavras-chave:

Vanguardas, Ensino de literatura, Imagem

Resumo:

A matéria é a Literatura do século passado, o público é o jovem deste tempo. Por um lado, sabe-se bem, os movimentos de vanguarda do início do século XX provocaram importante ruptura com a tradição cultural do século XIX, modificando as manifestações artísticas, entre elas a literatura. Por outro lado, chega-se, nos estudos literários do início da terceira série do Ensino Médio, aos tempos que precederam o Modernismo. Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo. Movimentos observados em História da Arte, obras visitadas, artistas a frente do seu tempo expressam em cores e formas novas a ideia de “marchar na frente”. Em Literatura, a quebra da sintaxe, a força das expressões inusitadas e a temática até então distante dos textos conhecidos despertam curiosidade e, de certa forma, encantamento. A ideia de vanguarda, de ruptura da tradição aproxima as observações e as aulas das inquietações próprias dos dezessete anos, fase de fascinantes explosões e de saudáveis rebeldias. Desse modo, planejou-se um trabalho que pretendia não só unir literatura e outras artes, como também aplicar os conhecimentos abordados em sala.  Inserido no evento I Semana da Poesia do Colégio de São Bento, o desafio proposto aos estudantes foi o de juntar a um poema uma imagem, para construir, no espaço-tempo de cinquenta minutos diante da tela do computador, um slide que representasse a visão – ou leitura – do texto escolhido. Assim, as duplas de estudantes organizaram e montaram livremente as suas telas. Em seguida, em decisão coletiva, cada turma selecionou e sugeriu a trilha sonora que melhor acompanhasse a projeção da sequência de poemas do grupo. Slides expostos, visitados, vistos e revistos durante o evento da escola. Seguimos com os estudos e com os textos, com a certeza de que conhecer a revolução artística do século passado dialoga com as reflexões de quem vai, neste século XXI, mais uma vez, ressignificar o futuro. Ensinar literatura não é, nem nunca foi, estudar autores e obras, ensinar literatura é permitir um apropriar-se de um saber-sentido no sabor da linguagem.

BRUNO DA SILVA SOARES

UFRJ

Cartas insólitas e horríficas entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa

Palavras-chave:

Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Insólito, Horror

Resumo:

As narrativas de Mário de Sá-Carneiro apresentam  temáticas que se identificam com o  Fantástico e seus subtemas insólitos abrangentes de diversos vieses do Medo: o Grotesco Horrífico de Kayser, o Horror Cósmico de Lovecraft, o Medo de Poe dentre outras construções próprias do autor português. A proposta deste texto é apresentar as teorias de que faz uso o próprio autor sobre a construção técnica e filosófica dessas tendências , identificáveis em suas correspondências com o amigo Fernando Pessoa. Por meio dessas é possível encontrar as vozes discursivas e os fios narrativos que Sá-Carneiro utiliza em sua obra novelística e contista o que ajuda a compreender a composição do Horror em seus enredos

CAMILA FRANQUINI PEREIRA

UFRJ

A luz e o homoerotismo: entre Sá-Carneiro e Luís Miguel Nava

Palavras-chave:

Luís Miguel Nava, Mário de Sá-Carneiro, Luz, Homoerotismo

Resumo:

Tecnologia da Segunda Revolução Industrial, a lâmpada incandescente substituiu as velas e as lamparinas nas cidades europeias, e a luz elétrica tornou-se um dos grandes símbolos da modernidade. Cidades amplamente iluminadas propiciaram o cenário da Belle Époque, de que irrompeu o Futurismo, vanguarda trazida de Paris para Portugal pelos jovens de Orpheu. Nesta comunicação buscarei analisar o uso da luz para dar contornos homoeróticos ao conto A confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, e poemas da obra de Luís Miguel Nava. Publicado em 1914, o conto traz a luz conduzindo uma história de dimensão homoerótica, que representou uma ruptura com a moral da sociedade do início do século XX. Percebe-se já a relevância da luz pelo título, que nos apresenta o narrador e protagonista da história, que não à toa se chama Lúcio. Esse nome tem origem no latim Lucius, e significa "o luminoso". O elemento da luz é, portanto, radical na construção desse personagem e, sendo ele o narrador, para o desenvolvimento da história. A narração se inicia em Paris. É 1895 e, em meio aos artistas, Lúcio e um amigo conversam sobre a admiração que têm por uma americana ruiva. Numa festa em que a sensualidade sobrepujou qualque moral vigente  à  época, a americana promove um espetáculo de luzes que culmina com seu suicídio. No evento, a Lúcio é apresentado Ricardo, e eles rapidamente se tornam amigos. A amizade leva à tragédia do assassinato (ou suicídio?) de Ricardo, por que Lúcio é condenado. Mesmo que por vias diferentes das percorridas por Sá-Carnerio, quem deu sequência à relação que se estabeleceu entre luz e a homoerotismo inaugurada na obra do jovem de Orpheu foi Luís Miguel Nava, escritor português da geração de 1970. Em sua obra, o erotismo é atado a figura de um rapaz que é, segundo Gastão Cruz, um arquipersonagem, o “rapaz-relâmpago”. Ele seria não o objeto de desejo, mas o próprio fulgor do ato erótico, a fusão entre os seres, uma experiência de continuidade nos termos de Georges Bataille.

CINDA GONDA

UFRJ

Futurismo Português: Ponto e Contraponto

Palavras-chave:

Futurismo, Sensacionismo, Revista Árvore, Fernando Pessoa

Resumo:

Sabemos que o Futurismo em sua essência possuía uma vertente revolucionária de modificar o curso da vida; outra, mais retrógada, associada às sombras da época que culminaram no fascismo. Em Portugal, dará continuidade a geração modernista que surge em torno de ”Orpheu”: Pessoa, Sá Carneiro e Almada, dentre outros.  Ao afirmar que “o futuro da arte europeia está no movimento sensacionista”,  e que este não tem a mesma projeção dos outros “ismos por haver nascido longe desses centros”, Pessoa  marca sua posição em relação ao futurismo europeu. Se para ele, por exemplo, “o sensacionismo representa a atitude estética em todo o seu esplendor pagão” nada se afastaria mais do manifesto do que tal pressuposto.  Nos anos 50, A “Revista, Árvore, folhas de Poesia”, surge para retomar o diálogo com Pessoa. Como “Portugal Futurista”, cujo único número foi aprendido, Árvore terá seus quatro números retirados de circulação. A publicação se torna o elo de ligação entre os modernistas e a vanguarda de 61.

CRISTINA SUSIGAN

UPM

Arte, ação e vida: 100 anos de Amadeo de Souza Cardoso

Palavras-chave:

Amadeo de Souza Cardoso, Vanguarda, Futurismo, Modernismo

Resumo:

Após o amplo sucesso que obteve em vida, com uma produção intensa e diversificada, Amadeo de Sousa Cardoso mergulhou num silêncio de 50 anos, que mais recentemente tem vindo a modificar-se com investigações e análises de suas obras.  Primeiro com uma retrospectiva no Grand Palais, em Paris, e em 2016, 100 anos após a polêmica exposição no Porto - onde foi agredido devido à temática das obras expostas -, a exposição Amadeo de Souza Cardoso/Porto-Lisboa/2016-1916, com 81 obras, recriando-se o ambiente da emblemática exposição, na linha da curadoria da época. Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) foi o pioneiro do Modernismo em Portugal, com uma ampla pesquisa plástica que percorreu as vanguardas do Fauvismo ao Futurismo, interrompida pela morte prematura do pintor. Amadeo estabelece um elo com o espaço pictórico de Cézanne, pela geometrização das formas e um tratamento simplificado da cor que o aproxima das correntes abstratas vindouras. Artista convicto do caminho que quer seguir e amparado por uma família aristocrática, participou ativamente na revolução do início do século XX, vivendo e criando à velocidade da inquietação. Com 19 anos parte para Paris onde ingressa na universidade de arquitetura, enveredando a seguir pelas artes plásticas, mesmo contra a vontade inicial da família. Nesta sua vivência no estrangeiro relaciona-se com os grandes nomes da arte, como Amadeo Mondigliani (1884-1930), Constantin Brancusi (1976-1957), Picabia (1919-1879), Juan Gris (1887-1927) e o casal Robert (1885-1941) e Sonia Delaunay (1885-1979), entre outros. Em 1911 participa do XXVIII Salão dos Independentes com seis obras, e em 1913, participa no Armony Show com oito obras, em Nova Iorque - com itinerância por Chicago e Boston -, ao lado dos maiores nomes do movimento modernista. Esta comunicação tem o intuito de fazer um breve percurso biográfico do artista, ressaltando sua correspondência com a família, que ele refere como “livro de viagens”, a fim de relacionar a importância da sua obra com as principais tendências artísticas dos movimentos de vanguarda com os quais estabelece um intenso diálogo.

DANIEL MARINHO LAKS

UFF

Expressão intersemiótica como signo da autoconsciência histórica da modernidade em Almada Negreiros

Palavras-chave:

Almada Negreiros, Expressão intersemiótica, Modernismo, Autoconsciência histórica da modernidade

Resumo:

Almada Negreiros foi um artista extremamente plural. Ao longo de sua ampla produção, explorou diversas linguagens artísticas, como o desenho, a pintura, o teatro, a dança, a poesia, o romance e o manifesto. Esta polifonia artística almadiana, esta vontade de dar conta de tudo ao mesmo tempo revelava-se também no ideal sensacionista de “sentir tudo de todas as formas” e na filiação concomitante de Almada Negreiros a diversas escolas estéticas, se definindo ao mesmo tempo como “Narciso do Egito”, desenhador, “poeta de orpheu, futurista e TUDO”. Além de explorar as mais diversas linguagens artísticas em seu projeto estético, Almada Negreiros dedicou-se à investigação da interação das diferentes linguagens, misturando a escrita com a performance (i. e. Manifesto anti-Dantas), a pintura com o texto (retrato de Fernando Pessoa), o teatro com o desenho (O Pierrot que nunca ninguém soube que houve), etc. O objetivo desta comunicação é relacionar o trabalho de investigação das interseções de diferentes linguagens artísticas no projeto estético de Almada Negreiros com a ideia de autoconsciência de pertencimento a um período de viragem histórica, onde as antigas categorias de representação não se mostravam suficientes para a expressão de um presente entendido como o alvorecer de uma nova era. Nesse sentido, a criação de obras formadas a partir da interação de metabólitos de linguagens artísticas diversas para formar um corpo novo parece, mais do que revelar apenas uma vontade de renovação dos gostos, apontar para uma  investigação dos limites das categorias de representação. O aspecto de experimentação constante na obra de Almada Negreiros e o seu amplo envolvimento na cena cultural parecem corroborar essa ideia de vontade de participação no regime de criação das formas de representação durante sua contemporaneidade. Almada Negreiros dialogou com diferentes vanguardas históricas que se constituíram como arcabouço cultural comum entre o autor e outras produções modernistas durante o século XX. Entretanto, a totalidade da obra de um autor tão múltiplo e que sempre buscou uma expressão original a partir do nacional jamais poderia ser focalizada por uma relação de influência direta e unívoca de um sistema estético prévio. Almada Negreiros foi um criador de suas próprias mitologias individuais, de seus próprios signos e significados concebidos para dar conta das questões que dialogavam com as tensões do seu tempo, o século XX, e do seu espaço, Portugal.

DANILO DIÓGENES MATAVELI DA SILVA

UFRJ

Dadaísmo ou o último instantâneo da zoeira europeia

Palavras-chave:

Arte, Literatura, Vanguarda, Dadaísmo, Crítica

Resumo:

Na primeira metade do século XX, o dadaísmo colocou o poeta diante de uma tarefa tão grande quanto a superação da miséria cotidiana, da pobreza e da ruína provocada pela primeira grande guerra. Ele colocou o poeta diante dos seus próprios estilhaços, diante da perda de sua unicidade. A divisão e subdivisão ininterrupta do poeta no período histórico que gerou os movimentos de vanguarda só podia inspirar na contemporaneidade da época a mais absoluta perplexidade. A cada par de anos um movimento nascia ou se desmembrava, ao passo que outros simplesmente deixavam de chamar para si o interesse das massas e dos seus próprios adeptos. É, por exemplo, o que Gramsci relata sobre o futurismo em uma carta escrita no ano de 1922, mesmo ano em que, no Brasil, o modernismo começava a dar seus primeiros passos no caminho apontado pelos movimentos históricos de vanguarda da Europa, dentre eles o próprio futurismo. Animado por um espírito altamente irônico, o dadaísmo corroeu por dentro os padrões estéticos da literatura, desorganizou a lógica do discurso e do pensamento artístico, ridicularizou a própria linguagem, matéria-prima vital para a criação literária. Este trabalho procura tecer alguns comentários sobre a natureza irônica do dadaísmo em relação à sua época e às suas particularidades ao lado dos demais movimentos históricos de vanguarda. Para isso, analisaremos algumas manifestações e procedimentos dadaístas, além das ideias de Hugo Ball e Tristan Tzara, dois dos principais teóricos e organizadores do movimento.  Neste trabalho também buscamos descrever o posicionamento dadaísta diante do maior impasse enfrentado pelos movimentos históricos de vanguarda. Quando as vanguardas tomaram para si a tarefa de transformar a instituição arte, com o intuito de conduzi-la à práxis vital, eles se depararam com um problema de primeira ordem. Para que a instituição arte fosse transformada e a arte incorporadora à vida, a arte precisaria deixar de existir como arte, isto é, ela deixaria de ser um ofício da intelligentsia para se tornar uma práxis indissociável das demais esferas da sociedade cristalizadas como subsistemas pelo processo capitalista de divisão do trabalho. Em outras palavras, para ser incorporada à práxis vital, a arte precisaria deixar de ser arte. Por conta desse impasse e da dura resistência da instituição arte em face dos ataques vanguardistas, só restou às vanguardas encarar a impossibilidade de cumprir este que foi, segundo Trotski e Peter Bürger, o seu principal objetivo. Cada escola e cada movimento estava fadado à efemeridade caso não quisesse, inevitavelmente, se transformar naquilo que ferozmente combatiam. O dadaísmo parece ter tido uma posição absolutamente irônica, burlesca, trocista e contraditória ao lidar com o problema. Por isso, ao passo que os movimentos de vanguarda faziam uma autocrítica ao status da arte na sociedade burguesa, acreditamos que os dadaístas faziam, simultaneamente, uma autocrítica da própria vanguarda.

DEBORAH SIMÕES COLARES RAPOSO

UFF

Ressonâncias do Movimento Surrealista em “A eternidade e o desejo”, romance de Inês Pedrosa.

Palavras-chave:

Inês Pedrosa, Surrealismo, A eternidade e o desejo

Resumo:

Este trabalho procura fazer uma análise das ressonâncias do Movimento Surrealista na construção das vozes narrativas do romance A eternidade e o desejo, de Inês Pedrosa, no qual a personagem Clara realiza uma viagem ao Brasil, intencionando uma redescoberta, uma nova construção de si, tendo nos passos e sermões do Padre António Vieira uma orientação. O texto apresenta uma estrutura polissêmica, intercalada e fragmentada, transgredindo o enredo tradicional. Tais vozes conferem movimento à obra, uma vez que oferecem um fluxo contínuo e plural de consciências, através de monólogos (ou tentativas de diálogos). Contudo, para desenvolver essa análise, fizemos um recorte das duas vozes que mais congregam aspectos do projeto estrutural manifestado por André Breton e que foram esmiuçadas em trabalho anterior de autoria própria: a narradora-personagem Clara e a voz in off -  também denominada de “voz parentética”.  A Voz in off, apresentada entre parênteses, irá percorrer toda a história, ultrapassando as barreiras temporais do percurso narrativo e promovendo a ruptura dessa estrutura. Dessa forma, tal voz traz uma linguagem perturbadora e pode ser identificada como uma narradora, que se encontra num espaço livre e desencontrado, de onde partem todos as palavras. Por isso, é vista como num estado de transe, no qual revela a eternidade e a pluralidade presentes no verbo, chegando ao sentido mais puro da palavra, a imagem. Já a narradora Clara carrega um dilema existencial na busca pela liberdade, diante da cegueira que física que a condena a um olhar sobre o mundo com maior subjetividade, o que reflete numa procura pela voz fragmentada de Viera, que só pode ser encontrado nas palavras. Em face disso, Clara apresenta uma consciência solitária e uma confiança de pertencer ao desconhecido incompreendidas, alcançando a eternidade nessa entrega aos próprios desejos. Tendo como ponto de partida o Manifesto Surrealista (1924) e o Segundo Manifesto Surrealista (1930), ambos de André Breton, o trabalho buscou também base teórica nas ideias de Antonio Candido, Gilberto Mendonça Teles, Octavio Paz, Barthes, Blanchot e Foucault. O estudo permitiu entender as vozes destacadas enquanto discursos ligados à imagem literária e à sua potência em transmitir o indizível, no aspecto mais amplo e desprendido de real – tão buscado pelos surrealistas, através de sujeitos que têm sua origem e residência na linguagem.

DIONÍSIO VILA MAIOR

Universidade Aberta / CLEPUL

O manifesto futurista: apontamentos para uma transformação das consciências

Palavras-chave:

Manifesto Literário, Futurismo, Carnavalização

Resumo:

Procurarei desenvolver uma reflexão sobre o manifesto literário como um dos sustentáculos estético-ideológicos essenciais do Modernismo português e do Modernismo brasileiro — no que à experiência teórico-programática diz, essencialmente, respeito.

EDSON ROSA DA SILVA

UFRJ

As cidades tentaculares : uma pré-visão do futurismo

Palavras-chave:

Emile Verhaeren, Literatura de expressão francesa, Marinetti

Resumo:

Marinetti viveu em Paris no auge da “Belle époque”, e pôde captar e aproveitar-se do clima cultural e da euforia pelo novo século, pela efervescência das mudanças que faziam da capital francesa o centro da vida social e artística do mundo, o que decorria das muitas transformações do final do século XIX que transformara, de forma profunda e em caráter definitivo, a cidade medieval, a economia primitiva e o comércio artesanal, em benefício de uma cidade moderna, de grandes eixos viários, com a economia apoiada e fortalecida pelos banqueiros e com o comércio de lojas crescendo de vento em popa, sobretudo os grands magasins de tecidos, que favoreciam a moda, a elegância, e o clima de festa daquele início de século. E mais, o que é talvez de suma importância para o futurismo, tudo o que decorreu da revolução energética, do carvão inicialmente, com o desenvolvimento dos meios de transporte: trens, vias férreas, automóveis, e com o desenvolvimento da indústria e das máquinas.   É nesse contexto de transformações que Emile Verhaeren se inspira para escrever poemas que já anunciam o caráter crítico e inovador proposto pelo manifesto de Marinetti. Desde cedo, o poeta belga já se interessava pela critica literária e pela poesia, e já em 1881 (nascera em 1855) colaborava com a revista Jeune Belgique. Escreve poemas de caráter místico, liga-se ao grupo de simbolistas da revista: La Wallonie, excursiona pela França e pela Itália, surpreendendo-se exatamente com as transformações provocadas pela industrialização crescente da Europa. Vê a vertiginosa evolução das cidades e do poder da burguesia que afastam e proletarizam o trabalhador, afastando-o do campo, transplantando-o para o centro urbano e, depois, lançando-o na periferia e na miséria em nome do progresso e da civilização.  O título da coletânea que escolhi para falar dos poemas de Verhaeren é bastante significativo: “Cidades tentaculares” (1902), onde o adjetivo sugere a idéia ao mesmo tempo de tentação (o homem tentado pelos encantos da grande cidade) e de devoração e dominação (pela cidade e seus tentáculos).

EDUARDO COELHO

UFRJ

Manuel Bandeira e as vanguardas

Palavras-chave:

Manuel Bandeira, Tradição e vanguarda

Resumo:

Análise sobre a poesia de Manuel Bandeira em relação com as vanguardas europeias e o modernismo brasileiro. Observações acerca dos três paradigmas banderianos de ruptura (Guillaume Apollinaire, Blaise Cendrars e Mário de Andrade), destacando sua importância para a elaboração de Libertinagem, publicado em 1930. Por fim, será considerada a técnica bandeiriana de atualização de topoi por meio das técnicas de vanguarda.

EDUARDO DE FARIA COUTINHO

UFRJ / UFF

A escrita de Guimarães Rosa: “um compromisso do coração”

Palavras-chave:

Guimarães Rosa, Linguagem, Vanguarda, Estrutura narrativa

Resumo:

Ao colocar em xeque a linguagem e a estrutura narrativa tradicional da literatura brasileira, através da ruptura de todo o convencional e das inovações que introduziu em seu processo de escrita, Guimarães Rosa realizou, com sua obra, uma verdadeira revolução no sistema literário nacional. Essa postura, que por um lado o aproximou da que fora adotada pelas Vanguardas do princípio do século XX e do Modernismo brasileiro da primeira fase, e, por outro, induziu críticos, particularmente euro-norte-americanos, a vê-lo como um “pós-moderno”, será discutida neste trabalho, a partir de fragmentos extraídos de momentos distintos de sua narrativa, que teve como uma de suas mais fortes preocupações a de que é “somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo”.

EMERSON INÁCIO

USP

Musas, não, Medusas: Mulheres, Futurismos e as periferias do Cânone

Palavras-chave:

Poesia de Língua Portuguesa, Literatura de autoria feminina, Modernismos, Periferia

Resumo:

Partindo do "Manifesto Futurista da Luxúria" e "Manifesto da Mulher Futurista", ambos de autoria de Valentine de Saint-Point, o ensaio pretende discutir o papel e a participação de mulheres nos movimentos modernistas português e brasileiros, atentando para o estatuto periférico atribuído a autoras como Gilka Machado e Judith Teixeira, quando vistas em contraste com outras suas contemporâneas, que se não participam de Orpheu, da Semana de Arte Moderna ou da Presença, serão pelos seus participantes consideradas exemplos da moderna literatura. Nos casos português e brasileiro, as empreitadas modernistas visavam à saída de seus estatutos marginais e culturalmente periféricos, apenas que (re)produzindo, para isso, sejam juízos antifemininos sejam posicionamentos que minimizavam a literatura feminina sua contemporânea.

ERICK DA SILVA BERNARDES

UERJ-FFP

Intervenções: o escritor-intelectual Graciliano Ramos em Memórias do cárcere

Palavras-chave:

Memórias do cárcere, Literatura de vanguarda, Graciliano Ramos

Resumo:

Pode parecer lugar comum falar do escritor Graciliano Ramos, pois não é de agora que esse artista alagoano tem sido considerado pelo cânone um dos autores mais ativos no que tange aos seus modos de produção textual. No entanto, a capacidade de sua obra de transitar entre os diversos meios sociais e dar voz aos excluídos socialmente faz de Ramos um artista de hoje e de sempre, o que naturalmente demonstra o quão pertinente é a sua escrita. Nossa atenção se volta para a relação entre autoficção, confissão e história na configuração do papel do escritor-intelectual em Memórias do cárcere (2011). Embasamos nossa ideia na discussão oferecida no livro Em defesa dos intelectuais, de Jean-Paul Sartre (1994), para quem intelectual é aquele homem que “adquire alguma notoriedade por trabalhos de inteligência e faz uso dessa notoriedade para sair de seu domínio e criticar a sociedade”, especialmente no que tange seus falsos moralismos. Na outra ponta da discussão acerca do papel do intelectual na modernidade, está o pensamento de Gayatri C. Spivak (2010), para quem a possibilidade do intelectual falar pelos desfavorecidos se mostraria menos um dado realizável e mais um equívoco a ser questionado. Contudo, interessa-nos esse mundo literário que Graciliano Ramos criou em sua biografia, a partir de experiências de linguagem, como uma resposta artística às inquietudes de sua visão político-social. Nesse sentido, a arquitetura textual da sua escrita nos leva a compreender tanto a vida quanto a obra como elementos essenciais da sua poética, sobretudo quando Ramos nos entrega experimentos narrativos híbridos cujas fronteiras entre ficção e não-ficção são de difícil delimitação. Sendo assim, nos interessa a leitura cerrada de Memórias do cárcere e o modo como um autor-narrador ou narrador-autor será marcado pelo fenômeno da crispação, revelando na obra uma espécie de resistência interna do preso político com relação às experiências traumáticas na prisão. A concentração na temática política, representada na estrutura formal do discurso literário de Ramos, anuncia o comprometimento de um narrador de modo algum refestelado ou isolado em sua consciência inerte, mas uma entidade ciente do papel do intelectual em uma época marcada pela violência da ditadura brasileira.

ETTORE FINAZZI-AGRÒ

Sapienza Universidade de Roma

“Agora é a guerra”. A relação Máquina/Natureza no Futurismo e no Modernismo

Palavras-chave:

Futurismo, Modernismo português, Modernismo brasileiro

Resumo:

As celebrações dos cem anos da publicação de Portugal futurista levam a considerar o contexto histórico e cultural em que nasce a revista, marcado pela Grande Guerra e pela exaltação do progresso tecnológico que naquele evento bélico encontra a sua mais evidente – e trágica – manifestação. A partir da comparação entre o Ultimatum de Almada Negreiros e aquele assinado por Álvaro de Campos pretendo analisar a relação entre phýsis e téchne no interior do futurismo português, sublinhando a divergência ideológica entre os dois representantes do primeiro Modernismo, ligada sobretudo à atitude perante à guerra e marcada, no plano estético, pela diferente postura quanto à relação entre tradição e inovação. Nessa perspectiva, um termo de comparação importante é constituído, naqueles mesmos anos, pelo posicionamento de Mário de Andrade diante da Primeira Guerra mundial e da relação entre o homem e a máquina.

GABRIELA MACHADO VENTURA

UFRJ

Performances festivas : Mario de Sá-Carneiro e Karen Blixen

Palavras-chave:

Mário de Sá-Carneiro, Karen Blixen, Performance, Festa, Vanguarda

Resumo:

A presente comunicação pretende estabelecer um paralelo entre a festa promovida pela personagem Americana em A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, e o banquete oferecido por Babette em A Festa de Babette, de Karen Blixen. Situadas temporalmente no contexto da belle époque europeia, os episódios presentes em ambas as narrativas são apresentados não apenas como ocasiões festivas para o deleite dos convidados, mas como performances artísticas multidisciplinares que tencionam representar os projetos estéticos de suas organizadoras. A Americana e Babette são duas mulheres estrangeiras que, cada uma a seu modo, propõem ideias disruptivas nos meios sociais em que estão inseridas. Uma chega à Paris finissecular envolta em mistério - sequer é nomeada, e só a conhecemos por sua alcunha, marca de alteridade - e oferece uma festa sensorial e sinestésica à elite cultural, predominantemente masculina, para  provar sua tese sobre a voluptuosidade da arte. Outra, ex-cozinheira de um famoso Café parisiense, e communarde sobrevivente do massacre à Comuna de Paris, em 1871, refugia-se por anos em uma pequena e conservadora vila norueguesa. Quando ganha um inesperado dinheiro na loteria, decide preparar um banquete em homenagem à comunidade que a acolheu, e usa a comida e a bebida para criar uma atmosfera jamais experimentada pelas personagens puritanas e frugais que a cercam. As festas da Americana e de Babette funcionam como exemplos da arte performática, então uma novidade conceitual do fim do século XIX, que seria explorada pelas vanguardas artísticas no início do século XX, oferecendo perspectivas radicais de  execução e fruição para artistas e espectadores, e realizando, em um certo sentido, o sonho de Marinetti, para quem a arte deveria ser "álcool, não bálsamo".

GILDA SANTOS

UFRJ / RGPL

Do Futurismo e outros exercícios de vanguarda, apud Jorge de Sena

Palavras-chave:

Vanguardas, Futurismo, Jorge de Sena

Resumo:

Focalização do Futurismo e das Vanguardas do séc. XX na ensaística de Jorge de Sena. Contextualizações históricas e metodológicas. Ecos dessas vanguardas na sua própria obra de criação?

GUILHERME GUTMAN

PUC-Rio

Clínica & Crítica

Palavras-chave:

Clínica, Crítica, Psicanálise

Resumo:

Articulação entre o trabalho de crítica em arte e as possibilidades de escuta do processo criativo do artista.

IVANA BENTES

UFRJ

Da Fome ao Sonho. Glauber Rocha e a Democracia Sincrética

Palavras-chave:

Glauber Rocha, Estética, Política, Futurismos

Resumo:

O pensamento estético e político de Glauber e a passagem da estética da fome a estética do sonho. A atualidade das questões trazidas nas obras em que se coloca uma nova questão: Lutar  não no campo da razão e do pragmatismo político, com suas alianças de ocasião de partidos e lideranças, mas nos territórios da desrazão e do mito, da própria crise e do transe, como uma chave de leitura política e de compreensão do imaginário brasileiro. A instabilidade e crise estruturante da América Latina e do Brasil, presentes e expressas esteticamente nas obras de Glauber, para além da forma dualista e/ou panfletária, e como laboratório subjetivo das contradições e derivas do próprio capitalismo e da política.

JOANA MATOS FRIAS

Universidade do Porto

A cozinha futurista em Portugal

Palavras-chave:

Gosto, Cozinha Futurista, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Génio

Resumo:

Em que medida as obras do Modernismo português procedem ou não a uma integração de elementos gastronómicos na sua estrutura temática, e qual o valor e a significação estéticas de tal integração?; a crítica da razão gastronómica apresentar-se-á como um sintoma da linhagem pós-simbolista e decadentista do Modernismo (via Gautier, Baudelaire, Poe, Mallarmé, etc.), ou será possível detectar pelo contrário uma mais subtil e complexa inclinação vanguardista para os literais prazeres da carne, de que La Cucina Futurista de Marinetti e Fillìa poderia constituir exemplo simultaneamente emblemático e perturbador?; haverá assim, como quis Nietzsche para a filosofia (cf. A Gaia Ciência), uma poética futurista da nutrição?; e, em última instância, que vínculo se poderá estabelecer entre o regime dietético e o regime poético, isto é, como problematizar a incidência das alusões gustativas no próprio processo de criação e de composição literárias, e que consequências esses dois regimes cooperantes terão para o exercício do gosto artístico?

JORGE EDUARDO MAGALHÃES DE MENDONÇA

UFF

A QUESTÃO DA TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO NO TEATRO DE AUGUSTO ABELAIRA

Palavras-chave:

Comunicação, Tecnologia, Teatro

Resumo:

Este trabalho é um breve estudo sobre a visão da comunicação entre as pessoas através da tecnologia, sob uma ótica futurista, tecnológica e até mesmo visionária, nas peças teatrais Anfitrião outra vez e A palavra é de oiro, de Augusto Abelaira, além de também abordar, de um modo breve o seu romance Bolor e a interação entre as personagens. Será abordada a forma bem humorada com a qual Abelaira aborda a temática da comunicação aliada à tecnologia, com aspecto profético, fazendo uma previsão bem humorada acerca do uso de celulares e de mecanismos da informática, como a internet.

JORGE FERNANDES DA SILVEIRA

UFRJ

VIDA URGENTE

Palavras-chave:

Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Poesia 61

Resumo:

Reconsiderando versos de Fiama Hasse Pais Brandão e de Luiza Neto Jorge, considerações sobre as "novas visões do passado" na memória histórica coletiva do Portugal da segunda metade do século XIX e sobre a experiência pessoal e única do futuro da escrita poética da obra coletiva "Poesia 61" nos seus numerosos "recantos".

JORGE URIBE

USP / CAPES

Pessoa, autor (in)édito? – 1: A hora do “Ultimatum” e o olhar estrábico do Jano

Palavras-chave:

Autor, Edição, Tradição Crítica

Resumo:

O facto da obra de Fernando Pessoa existir, necessariamente, numa tensão entre textos éditos e inéditos ou de publicação póstuma acarreta diversas considerações acerca de qualquer descrição que se queira abrangente. Porém, não é só a totalidade e sua relação com fragmentos, projetos e intenções o que está em causa nessa tensão. Textos particulares publicados por Fernando Pessoa exigem releituras à luz de outros textos, conhecidos muito tempo depois, e que configuram uma estreita relação de implicação mútua num plano de publicações em desenvolvimento. Uma leitura de um texto específico poderá reclamar a colisão de horizontes de receção distintos, determinados pela progressão editorial da obra, e que na sua sobreposição desenham uma história do significado do texto, instável e acumulativa. O texto pessoano contém muitas vezes reflexões acerca da sua receção e modulações de futuras leituras, do próprio texto ou de outros que estabelecem com ele uma relação de continuidade. O que os primeiros leitores desses textos podiam ter lido a partir do que conheciam da obra contrasta significativamente com aquilo que nós podemos ler a partir do nosso conhecimento. Iremos ocuparmos especificamente do “Ultimatum” de Álvaro de Campos, texto publicado em diferentes suportes por duas vezes no ano de 1917. Através de considerações sobre a sua génese, no laboratório de escrita que é o espólio pessoano, será proposta uma leitura não autossuficiente do texto. Ao inscrever esse “manifesto-prefácio” num conjunto textual fortemente associado a materiais do espólio inscritos na produção de outros nomes de autores, tais como os de Ricardo Reis e António Mora, a sua significação será aproximada do lançamento e publicidade da obra pessoana como conjunto dramático. Esta reconstrução de uma família textual opõe-se a uma tendência comum de sobrecarregar o significado da proximidade do texto junto dos materiais com os quais foi publicado, i. e. no marco do movimento futurista em Portugal, pressupondo filiações ideológicas onde pode haver confrontação manifesta.

JORGE VICENTE VALENTIM

UFSCar

RUPTURA E VANGUARDA HOMOERÓTICA FEMININA:  UMA LEITURA DE SEDUÇÃO (1937), DE JOSÉ MARMELO E SILVA

Palavras-chave:

Futurismo, Vanguardas, Homoerotismo, José Marmelo e Silva

Resumo:

A presente comunicação tem como objetivo propor uma leitura do romance Sedução, de José Marmelo e Silva. Publicada em 1937, ou seja, vinte anos depois do advento da revista Portugal Futurista, a obra em foco não deixa de reiterar uma postura de ruptura em relação a certos modismos e tiques tradicionais, sobretudo, no tocante a comportamentos e expressão de idéia sobre as subjetividades sexuais. Vale destacar que o texto marmeliano vem à lume também dez anos depois da presença (1927), e são dois dos seus críticos que apontam as singularidades de uma vanguarda homoerótica feminina, em meio aos reclames mais ortodoxos de ensaístas da Brotéria. Alvo de uma quase polêmica, pretendemos apontar como o romance Sedução destaca-se neste duplo cenário vanguardista (de ruptura autêntica, numa postura herdeira do próprio Futurismo, e de novidades genológicas, na esteira das melhores produções presencistas) sem deixar de se impor pela sua originalidade e inovação. Para tanto, a ênfase recairá sobre a construção das personagens femininas (Noémia e Marta) e da masculina (Eduardo), na composição de um triângulo amoroso repleto de ambiguidades e oscilações de gêneros.

JULIA PINHEIRO GOMES

UFRJ

“A poesia faz-se olhos e ouvidos”:  o surrealismo português segundo Mário Cesariny

Palavras-chave:

Mário Cesariny, A intervenção surrealista, Surrealismo, Ensaio

Resumo:

Nesta comunicação, pretendemos levantar algumas questões relacionadas à ainda pouco explorada obra ensaística do poeta, pintor, tradutor e crítico português Mário Cesariny de Vasconcelos, a partir do livro A intervenção surrealista, publicado originalmente em 1966 pela Ulisseia e republicado em 1997 pela Assírio & Alvim. Trata-se de uma coletânea de caráter histórico organizada pelo próprio Mário Cesariny, que, “embora incompleta, parece-nos importante por esclarecer os contextos desta ‘Intervenção’ e tornar visíveis algumas linhas mestras dos princípios e da acção surrealistas” (CESARINY, 1997, p. 7). Esta antologia reúne, portanto, não só ensaios, mas também importantes manifestos, cartas, poemas e até mesmo uma cronologia de e sobre o movimento surrealista português, fundado oficialmente em 1947 pelo Grupo Surrealista de Lisboa, do qual faziam parte poetas e pintores, como Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo, entre outros. Naturalmente, por pretender recontar a história do surrealismo em Portugal, nem todos os textos ali presentes são atribuídos ao autor estudado, no entanto, alguns dos mais relevantes (e destes, sobretudo, os ensaios, nosso objeto de estudo) são, com efeito, de Mário Cesariny, que permanece até os dias atuais como o mais destacado nome do grupo – e um dos maiores expoentes da poesia portuguesa do século XX. Para este trabalho, selecionamos alguns ensaios do livro em questão nos quais o autor problematiza o surrealismo em Portugal tanto como um movimento “herdeiro” (ou não) daquela vanguarda nascida na França mais de vinte anos antes, quanto a partir de uma perspectiva própria, que possibilitou a criação de poéticas singulares (e, talvez, tipicamente portuguesas). A partir desses textos, pretendemos, então, refletir acerca do modo particular como Mário Cesariny constrói a sua visão – marcadamente poética – por meio do (controverso) gênero ensaístico, além de discutir o movimento surrealista e os seus desdobramentos em Portugal.

JÚLIO CESAR VALLADÃO DINIZ

PUC-Rio

Sonoridades contemporâneas - experimentalismos e apropriações

Palavras-chave:

Sonoridades, Textualidades, Experimentos, Apropriações, Mash-up

Resumo:

O texto pretende investigar o processo de produção, recepção, mediação e apropriação das manifestações artísticas que possuem a palavra escrita, falada e cantada como repertório constituído, como também analisar os lugares de fala que põem em tensão musicalidades, textualidades, corporeidades e imagens que encenam a arte do presente. A discussão tem como centro a ênfase na cartografia de algumas questões centrais no debate contemporâneo – corpo, identidade, imagem, mercado, mídia, ética, estética e política.

LEONEL ISAC MADURO VELLOSO

UFRJ

ESCREVER PORTUGAL SOB O SIGNO DA TEXTUALIDADE: A “METONÍMIA PUNCTUAL” EM UM FALCÃO NO PUNHO, DE MARIA GABRIELA LLANSOL

Palavras-chave:

Portugal, Llansol, Metonímia punctual

Resumo:

Este trabalho tem por objetivo estudar a obra Um falcão no punho, de Maria Gabriela Llansol, na sua radicalidade textual. Para tanto, analisaremos, primeiramente, a evolução da narrativa contemporânea em Portugal, para, depois, determo-nos na obra de Llansol. Buscar-se-á, ao longo do texto, uma aproximação entre tal autora e o pensamento barthesiano sobre “textualidade” e o conceito de punctum. Vale lembrar que, para o pensador francês: o “Texto é o que se coloca nos limites das regras de enunciação (racionalidade, legibilidade, etc.)” (BARTHES, p. 68, 2004). Limites que fazem dessa autora uma das escritas mais originais e vanguardistas da literatura portuguesa.

LICIA REBELO DE OLIVEIRA MATOS

UFRJ

A vida como experiência e ficção em Os memoráveis, de Lídia Jorge

Palavras-chave:

Memória, Testemunho, Revolução, Portugal

Resumo:

A escrita da vida se apresenta como uma veia temática recorrente na literatura, não se restringindo à simples apropriação de personagens reais na ficção, recurso comum nos romances históricos. Mais do que isso, a inserção da realidade no discurso literário costuma se dar pelo uso de gêneros textuais que têm como forte característica a proposta de um compromisso com a verdade na concepção latina de que fala Marilena Chauí, em Convite à Filosofia (2004), qual seja, a tentativa de um relato preciso de fatos que aconteceram. São exemplos desses gêneros as notícias jornalísticas, as entrevistas, os diários, os testemunhos. Por meio da união entre a dimensão histórica habitualmente contemplada nos escritos literários e essa profusão de discursos de veracidade, é possível criar obras que não façam muito por delimitar o que, dentro do texto, é experiência vivida no âmbito do que reconhecemos por real e o que é a camada ficcional que transforma tal discurso em literatura. Ainda que não se constitua, propriamente, como uma inovação de nosso tempo, não podendo ser denominado vanguarda, esse trabalho de criação, recriação e apresentação da vida na obra literária é sempre inquietante à leitura. À medida que põe em jogo os limiares entre a existência real (e suas subjetividades), a história e a ficção, promove, por meio do estranhamento vivido a cada nova leitura, uma renovação do papel do leitor como participante ativo do texto. Para discutir essa proposta de inserção da história e de discursos testemunhais na literatura contemporânea, recorrerei ao romance Os memoráveis (2014), de Lídia Jorge, narrativa fictícia que se baseia nos relatos de personagens inventados – mas, segundo a autora, inspirados em figuras reais – sobre a Revolução dos Cravos. Trazendo o 25 de Abril de 1974, sob os olhares de oito participantes do movimento, para a vista do leitor de hoje, a obra acaba por gerar uma experiência de resgate desse tempo compreendido em um dia de levante político, além de uma comoção pela reconstituição da realidade com base nas memórias individuais de todos os personagens. A literatura como lugar de expressão e reflexão sobre a vida e a história se manifesta, então, como um pilar do romance, e mesmo da obra de Lídia Jorge, conforme a escritora declara no discurso “Para um destinatário ignorado” (2004), reerguendo essa ligação fundamental e sempre comovente entre presente, escrita e passado.

LUCI RUAS

UFRJ

MANIFESTO, MANIFESTOS – PROFISSÃO DE FÉ E POESIA EM ALMADA NEGREIROS

Palavras-chave:

Futurismo, Manisfestos, Almada Negreiros, poesia, A cena do ódio

Resumo:

Este trabalho tem como ponto de partida o Manifesto Futurista de Marinetti, tal como foi publicado no único número da revista Portugal Futurista, em 1917. Para confronto, são selecionados “textos de intervenção” de Almada Negreiros, que, a exemplo do manifesto italiano, pretendem intervir na realidade, aproximando arte e vida. São textos que dialogam intimamente com a atividade literária de Almada, num processo evidente de metalinguagem, pondo em evidência aspectos que o filiam às vanguardas. Com o propósito de verificar como se dá essa interação manifesto/ poesia, toma-se como objeto de análise o poema “A cena do ódio”, que figurava no projeto da revista Orpheu 3, entretanto não publicada, por falta de financiamento. Ainda que escrito antes que se configurasse qualquer proposta futurista, esse poema é, segundo Gaspar Simões, o que mais se aproxima da estética de Marinetti. Para Arnaldo Saraiva, que introduz a edição tardia de Orpheu 3, é este o texto que melhor capta e sinaliza a modernidade literária, ao valorizar, na poesia, “a temeridade, a coragem, a audácia, a revolta, o movimento agressivo, a bofetada e o soco”. Por isso mesmo, a escolha.

LUCIA MARIA MOUTINHO RIBEIRO

UNIRIO

Modernidade e tradição em Antônio Nobre

Palavras-chave:

Modernidade, tradição, poesia, nobriana, Só

Resumo:

É consabido que a poesia do Só de Antônio Nobre, lançado em 1892, antecipa os temas e recursos que viriam a ser praticados por autores do Modernismo brasileiro. O poema “Lusitânia no Bairro Latino” é fértil em exemplos: a valorização da infância e da criança como personagem; a abordagem da loucura; a menção à marginalidade; a reprodução da ingenuidade e da espontaneidade da linguagem dos simples, ao desfiar os nomes dos barcos dos poveiros “com os seus erros de ortografia” (“Semos probes”, “Istrela do mar”); a associação de ideias pela enumeração de imagens, em que “palavra-puxa-palavra”, tal como detectou Othon Moacyr Garcia em Esfinge Clara de Drummond de Andrade; o destaque gráfico das palavras inscritas sobre o branco do papel.  Essa modernidade, porém, não deixa de conviver com as formas tradicionais da literatura ibérica, como as cantigas medievais, no poema “Os sinos”, e o romanceiro tipicamente peninsular,  em “Os Cavaleiros”,  investidos de uma roupagem atualizada.  Acresce-se a isso um intencional jogo metapoético e intertextual, em que o eu-lírico desenvolve sua concepção de poesia,  preferências literárias e erudição leitora.

LUCIANA MORAIS DA SILVA

UERJ/ UC

Dois coronéis e muita crítica: a vanguarda revisitada

Palavras-chave:

Personagem, Constructo Ficcional, Mário de Carvalho

Resumo:

As construções ficcionais atuais constituem-se, em geral, por um modo singular de olhar para o ontem e o hoje, contribuindo para a estruturação consciente de mundos e submundos possíveis textuais embasados pelo olhar crítico do autor acerca da sociedade em que está inserido. Sob esse viés as escolhas e interesses do artista perpassariam os cenários e nuances de mundos possíveis concretizados a partir da perspectiva da personagem em seus mais variados desdobramentos. O presente trabalho tem como objeto de estudo a obra Fantasia para dois coronéis e uma piscina (2003), de Mário de Carvalho, em que o autor propõe a configuração de um mundo possível auto-reflexivo marcado pela possibilidade do “falar” e da constatação dos inconvenientes existentes no quotidiano percebido pelas personagens. Pretende-se a partir da compreensão dos processos desenvolvidos na figuração das personagens notar o movimento de crítica e revisitação proposto por Mário de Carvalho. O olhar de dois homens sobre a realidade de seu país, sem realmente atuarem em prol de mudanças, confere ao texto um tom irônico e profundamente marcado pela necessidade de transformações. A expressão do novo rompendo com a ordem em vigor garantem uma proposta de crítica e reflexão por meio de considerações sobre a capacidade de transpor os significados apáticos de um mundo preso apenas a “tagarelice”. A denúncia da condição excessiva das trocas sociais, das conversas sem propósito, deixa extravasar o vazio das ações, condicionando, portanto, uma proposta de conscientização do esvaziamento, em certa medida, da própria condição de ator do futuro presente no humano.  Em oposição ao movimento e ao impulso para o futuro, as personagens de Mário de Carvalho constroem-se pela crítica ao quotidiano de personagens pertencentes a “um país que não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar”. A contradição entre a tagarelice e a ausência de perspectiva aponta, nesse sentido, para uma revisitação das propostas de ruptura e renovação presentes nas vanguardas, perspectivando uma efetiva mudança nos cenários em que os mundos possíveis se constituem. Sendo assim, as personagens de Carvalho contribuem para a confecção de um mundo possível construído pelo ontem e o hoje.

LUCIANA SALLES

UFRJ

O enciclopedista é um fingidor: por uma nova teoria do conhecimento na era da pós-verdade.

Palavras-chave:

Literatura Contemporânea, Afonso Cruz, interdisciplinaridade

Resumo:

A busca por uma teoria do conhecimento na era das pós-verdades, partindo da fragmentação da tradição e da desconstrução de uma noção antiga e estatizante dos saberes, acaba por se estabelecer como um gesto vanguardista em pleno século XXI. Problematizar tais conceitos através da arte, optando deliberadamente pela forma da enciclopédia como corpo textual usado para implodir o "enciclopédico", substituindo a "informação" pela reflexão, é o objetivo deste trabalho de leitura detalhada da Enciclopédia da Estória Universal de Afonso Cruz.

LUIS MAFFEI

UFF

O FUTURO AUTODESTRUTIVO

Palavras-chave:

Herberto Helder, Kazimir Malevich,  Gustav Metzer, Nikki de Saint-Phalle

Resumo:

Arte e sacrifício. Destruição e autodestruição. Temas nada estranho à poesia de Herberto Helder, que os performativa de diferentes maneiras ao longo de sua obra. Voltando ao futuro, ao futurismo, esta reflexão pretende revisitar o quadro de Kazimir Malevich, A cruz negra, como gesto já agônico dentro da perspectiva do futurismo, e pô-lo em tensão, tendo HH como fundo, com o sacrifício presente na instalação Auteil O.A.S, de Nikki de Saint-Phalle, e com a ideia de arte atuodestrutiva de Gustav Metzer

LUIZ GUILHERME RIBEIRO BARBOSA

CPII

O leitor, a dobra: o poema e a leitura no texto neoconcreto

Palavras-chave:

Neoconcretismo, Ferreira Gullar, Leitura

Resumo:

Se revisitar as vanguardas já implica o retorno àquilo que não nos é mais familiar, tampouco se deve supor que, enquanto aconteceram, as vanguardas foram familiares a seu tempo. Instalados, ainda mais, na dificuldade de nomear o próprio tempo nosso contemporâneo, revisitamos as vanguardas para, de acordo com a defesa de Marcos Siscar, “trabalhar com os dilemas que essa reavaliação nos impõe, os conflitos e o inacabamento de nossa maneira de entender a poesia” (SISCAR, 2016). Respondendo à provocação que o título desse Congresso faz, comemorando os 100 e o “sem” com que o Futurismo nos brinda em 2017, essa comunicação se propõe a revisitar a vanguarda do Neoconcretismo, revendo, sob uma chave de leitura ainda pouco desenvolvida, o estatuto do poema nos seus textos programáticos, principalmente no ensaio “Teoria do não-objeto” (1959) e nos “livros-poema”, ambos de Ferreira Gullar. Desde que considerados, além do poema visual, os conceitos de “poema espacial”, “poema enterrado”, “livro-poema” e “livro-universo”, essa vanguarda, embora lida como variante da poesia concreta, produziu obras que representam uma “ruptura” com o construtivismo poético do Grupo Noigandres, e cujo reconhecimento foi destinado ao campo das artes visuais. Pensar o sentido dessa ruptura no âmbito do poema, em diálogo com o ensaio de Ronaldo Brito, Neoconcretismo: Vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro (1999), e considerando o impasse para o campo literário que as experiências do poema neoconcreto representaram, implica destacar a incidência de uma questão própria da literatura desde a invenção do livro impresso: “como realizar um poema que resulte numa estrutura visual expressiva e, ao mesmo tempo, obrigue a leitura palavra por palavra?” (GULLAR, 2007). A nossa hipótese é que a pesquisa aberta pela ruptura neoconcreta procura uma teoria da leitura, em virtude de as formas das obras que com ela dialogam serem gestadas em função das condições de leitura. Por isso, na medida em que Philadelpho Menezes aponta que, para Gullar, a questão fundamental ao repropor uma vanguarda era “o papel do leitor na apreciação do poema” (MENEZES, 1998), os “livros-poema” e as outras experiências neoconcretas devem ser pensadas como poemas-leitura, baseados no modelo de leitura do livro impresso, feitos não para o olho e o ouvido, como os poemas verbivocovisuais dos concretos, mas para a vivência, na duração de uma experiência que manipula um objeto dobrável que vai se revelando.

MADALENA VAZ PINTO

UERJ- FFP

Ficção tavariana: uma vanguarda para o séc. XXI?

Palavras-chave:

Vanguarda, Procedimento, Ficção tavariana

Resumo:

Seria possível destituir o futurismo de uma ideia de futuro? Talvez seja este o ponto de partida para pensar as vanguardas na modernidade tardia. Escreve-se, cria-se, pinta-se sempre depois dos outros. O sujeito sai de cena enquanto consciência fenomenológica, adota procedimentos de permuta, combinação, re-operação, colagem. É o conceito de criador que se re-inventa. É o conceito de obra que se rescreve. Uma “heteronímia temático-estílística”, assim já foi definido o procedimento criado por Gonçalo M. Tavares. Cabe discuti-lo.

MARCELO FRANZ

UTFPR

A Tabacaria revisitada por Valter Hugo Mãe. A polissemia da metafísica em A Máquina de Fazer Espanhóis

Palavras-chave:

Vanguarda, Metafísica, Tabacaria, Valter Hugo Mãe

Resumo:

Segundo Julia Kristeva, “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”. Isso permite a inferência de que, mais do que uma escolha sujeita ao estilo do autor, mais do que o resultado de uma “influência” assumida por ele, a intertextualidade é inerente a todo ato de criação. Propomo-nos a analisar neste estudo o diálogo do romance A Máquina de Fazer Espanhóis (2012), de Valter Hugo Mãe, com o poema Tabacaria, do heterônimo pessoano Álvaro de Campo, nome de destaque no contexto vanguardista da revista Orpheu. Trata-se de um interessante caso de intertextualidade ancorado, nos termos de Tiphaine Samoyault, no conceito de memória da literatura, entendida como atitude de ressignificação dos textos do passado pelos do presente.  Ocorre no romance a releitura da situação descrita no célebre texto de Campos. Imbuído de um intento de revisão do poema, o romance de Mãe propõe, por meio do personagem Esteves (o “sem metafísica”) e de sua interação com outros internos do asilo “Feliz Idade” um debate sobre a identidade cultural portuguesa e os desastres da história do país no século XX, nomeadamente a permanência do legado do Salazarismo na mentalidade média do povo português até a contemporaneidade. A referência ao poema de Campos pelo romance de Mãe rediscute seus sentidos e os adapta a uma leitura complexa tanto da tradição literária de Portugal como da ligação desta com a vida nacional em sentido amplo. Pretende-se debater a polissemia do conceito de metafísica a no modo como o livro de Mãe o retoma a partir da sugestão de Tabacaria. Em A Máquina de Fazer Espanhóis, a interação do protagonista-narrador, o Sr. Silva, com Esteves, sujeito que, em tese, realiza o anseio pessoano de uma experiência livre das amarras da metafísica, ganha na proposta ficcional do romance uma dimensão complexa na medida em que enseja a reflexão sobre variados ângulos do termo metafísica a ponto de, em certo sentido, se contrapor ao que norteia o pensamento do poeta.

MARCELO PACHECO SOARES

IFRJ

Murilo Rubião por Murilo Rubião: a poética muriliana em um conto metalinguístico

Palavras-chave:

Literatura fantástica novecentista, Murilo Rubião, Intertextualidade

Resumo:

Esse trabalho é fruto de pesquisa que investiga as características da produção contística do escritor brasileiro Murilo Rubião. Aqui, identificamos as suas principais (conscientes ou não) influências – as obras de Edgar Allan Poe, Machado de Assis e Franz Kafka, assim como os textos bíblicos – a partir de evidências recolhidas de seu conto “Marina, a Intangível”, produção metapoética que Rubião publica originalmente em 1947 em seu primeiro volume de textos (intitulado O ex-mágico). Nessa narrativa, acompanhamos o seu protagonista José Ambrósio (poeta e jornalista, o que, de modo importante, aproxima-o da tarefa de um cronista) empreender arduamente o trabalho de composição de um poema, que será dedicado à figura misteriosa de Marina. A partir desses dois dados iniciais – o texto descrever metalinguisticamente o processo criativo do personagem e surgir já na obra inaugural de Rubião (reforçando que a discussão metapoética promovida pelo conto encontra-se nas gêneses da constituição da sua literatura contística) – julgamos poder inferir de “Marina, a Intangível” os fundamentos em que se assentam a sua produção artística, entendendo por isso mesmo o conto como metanarrativo (segundo é, aliás, ponto pacífico para a crítica muriliana). Essa percepção instrumenta-nos, portanto, para mais bem compreender a própria poética de Rubião, nas congruências que vislumbramos entre a sua produção e a do protagonista da narrativa, desde a dificuldade para produzir o texto (evidente pela forma incansável como José Ambrósio reescreve o poema, o que se reproduz no próprio Rubião em sua conhecida prática de republicar muitas vezes o mesmo conto infinitamente revisado e modificado) até o estranhamento causado pela associação de elementos sem aparente conexão lógica, passando ainda pelos traços que associam ambas as produções a uma literatura fantástica produzida no século XX, pontuada especialmente pela sua capacidade de ser uma descrição alternativa da realidade. Pós-vanguardas europeias e pós-Kafka, a obra de Murilo Rubião identifica-se assim pela inserção naturalizada do fantástico no âmbito do real, afinando-se ainda, dessa forma, com um realismo mágico que apenas ganharia mundo anos mais tarde no chamado boom latino-americano pelas mãos de autores como Julio Cortázar e Gabriel García Márquez, fazendo tanto do personagem José Ambrósio como do escritor Murilo Rubião justamente essas espécies de cronistas de um fantástico real que se abriga no mundo cotidiano.

MARCOS ROGÉRIO CORDEIRO

UFMG

FUTURISMO E REALISMO NA POESIA DE OSWALD DE ANDRADE

Palavras-chave:

Oswald de Andrade, Poesia, Futurismo, Sociedade Brasileira

Resumo:

No contexto do modernismo brasileiro, Oswald de Andrade foi o principal entusiasta do ideário futurista, transformando-o em ponto de partida para a sua produção literária. Ocorre, porém, que o futurismo não aparece puro na obra de Oswald, mas mesclado a outras formas e linguagens, dentre as quais se destaca o realismo. Realismo aqui não deve ser entendido como escola ou estilo de época, nem como método de descrição da realidade imediata, mas como forma de composição capaz de penetrar as camadas mais profundas da realidade histórico-social, descobrir suas determinações mais ocultas e dramatizá-las no nível da representação. Desse ponto de vista, o realismo também se mostra uma forma mesclada, pois, para representar artisticamente a realidade – que é heterogênea, complexa e multiestratificada, desenvolvendo-se de maneira contraditória e imperfeita – a linguagem precisa adotar diferentes meios de expressão, diversas estratégias de formalização artística. Nosso objetivo é analisar a poesia de Oswald de Andrade, peças que realizaram de maneira particular a síntese artística dos princípios formais do futurismo e do realismo. Por meio de uma fatura elíptica e fragmentada, reduzida ao essencial e fazendo uso seletivo de uma linguagem plástica, essencialmente imagética – características próprias do futurismo tal como Oswald o assimilou – temos a reconstrução da história econômica, social e cultural do país a partir de elementos dispersos, postos em relação seca, quase sem mediação, mas que permitem identificar uma lógica de desenvolvimento histórico. Essa lógica é explorada em suas virtuais configurações durante o processo de modernização capitalista, do qual o movimento paulista de 1922 é parte. A peculiar inserção do Brasil na ordem capitalista mundial é figurada de dois modos distintos e complementares na poesia de Oswald: como matéria de reflexão exposta nos assuntos variados dos poemas e como princípio de formalização artística, pois, assim como a técnica futurista de construção, a modernização brasileira foi e ainda é elíptica, fragmentada e incompleta.

MARIA ALICE VOLPE

UFRJ

A língua cantada e as pronúncias regionais: o mapeamento musical do Brasil no contexto de transição das teorias do “caráter nacional”

Palavras-chave:

Canto em português, Música brasileira, Palavra cantada

Resumo:

Os projetos de Mário de Andrade visando ao mapeamento musical brasileiro incluíram um inventário das pronúncias regionais e estudos fonéticos sobre o condicionamento mútuo entre palavra e canto. Seus ensaios afirmavam que a validade expressiva das músicas nacionais residia, sobretudo, no timbre, na dicção e em certas constâncias de entonação, conferindo especial atenção às diferenças regionais da língua falada e cantada, pois ali residiriam os fundamentos para que o canto erudito lograsse expressar o “caráter nacional”. Essa ênfase nos aspectos linguísticos se deu numa época de intensa transição de marcos teóricos no pensamento sócio-antropológico, desde as teorias evolucionistas e deterministas do século XIX até o advento do conceito antropológico de cultura. Os registros fonográficos coletados no Arquivo da Palavra da Discoteca Pública Municipal do Departamento de Cultura de São Paulo (1937) e as análises das gravações comerciais dos cantores eruditos e populares (1938) foram realizados sob o novo conceito de “raças históricas” e de “processos psicossociais” que buscavam explicar o “caráter nacional”. Este estudo pretende contribuir para uma contextualização acurada das nuances de significados de termos e conceitos em franco processo de reformulação, presentes nos textos de Mário de Andrade, importando não apenas para a genealogia do pensamento do próprio Mário, mas também para melhor situar as diversas interpretações que seus textos teriam por parte de seus leitores e interlocutores naquelas décadas.

MARIA DA GRAÇA GOMES DE PINA

Università degli Studi di Napoli "l'Orientale"

Movimento e analogia em Souza-Cardoso

Palavras-chave:

Souza-Cardoso, analogia, Movimento, Oposição, Boccioni

Resumo:

Como é óbvio, não se pode enclausurar a obra de Amadeo de Souza-Cardoso num estilo definitivo e fixo. Pintor que atravessou, sempre ante litteram, os movimentos artísticos do seu tempo (basta pensar no cubismo, por exemplo), Souza-Cardoso pôde entrar em contacto com pintores e, em geral, intelectuais que, em finais de Novecentos e inícios do século XX, confluíam para Paris como borboletas encantadas e entontadas pela Cidade da Luz. A sua vivência parisiense e a predisposição, diria plenamente existencial, para a descoberta de novas formas de arte levaram-no a experimentar uma realização prática de princípios teóricos que vinham estimulando e/ou alimentando as mentes de intelectuais finisseculares, dispostos a revolucionar, diria mesmo até pôr de pernas para o ar, o status quo europeu. Embora não fosse afiliado direta e especificamente a nenhum desses movimentos que explodiram durante a sua breve existência, Souza-Cardoso, dentre a sua produção fértil e vasta, conseguiu de certo modo tocá-los todos com a leveza e a beleza que caracterizam as suas obras. Um pouco mais a sul de Paris, e atravessando a fronteira itálica, temos outro artista, Umberto Boccioni, pintor e escultor ativíssimo e muito mais próximo dos movimentos vanguardistas que, como mechas, iam inflamando algumas áreas europeias. Total e abertamente promotor e aplicador dos tópicos futuristas de Marinetti, Boccioni dedica-se à transposição dos preceitos marinettianos para as artes, sobretudo para a pintura, mas também para a escultura. É precisamente uma obra escultória sua, bastante famosa, que atraiu a minha atenção. Trata-se de Forme uniche nella continuità dello spazio, escultura em bronze, de 1913, que representa muito provavelmente uma figura humana em movimento, dir-se-ia quase uma espécie de soldado. Igualmente de 1913 é, pelo contrário, a pintura a óleo de Souza-Cardoso, intitulada O Atleta, obra em que uma figura humana, bastante estilizada, é capturada e por sua vez captura o movimento. Pretendo analisar as duas obras de arte, portuguesa e italiana, tendo em consideração, não só o facto de ambas tenderem para o mesmo objetivo, isto é, o movimento do corpo humano, como também por se distanciarem e se aproximarem simultaneamente das indicações programáticas do manifesto futurista.

MARIA LUCIA GUIMARÃES DE FARIA

UFRJ

Canto e plumagem da palavra rosiana: natureza, cosmos e formatividade

Palavras-chave:

Linguagem, Natureza, Imaginação, Reciprocidade, Confeiçoamento

Resumo:

A prosa de Guimarães Rosa impacta de imediato por seu caráter inovador. É certo que em sua elaboração minuciosa há muito da pesquisa linguística e do investimento formal caros à modernidade artística. Mas a língua de Guimarães Rosa não presta contas essencialmente ao experimentalismo das vanguardas. A palavra rosiana opera uma integração cósmica, que reconcilia o homem com a natureza. Dizer, então, equivale a nascer e, neste ato genesíaco, a linguagem se absorve do ímpeto metamórfico da natureza, concebida como corpo vivo.

MARIA THERESA ABELHA ALVES

UFRJ

A FAINA NO COMPASSO DA VANGUARDA

Palavras-chave:

Futurismo, Cinema de vanguarda, Montagem, Velocidade e ritmo

Resumo:

A recepção da estética futurista em Portugal. Análise dos aspectos vanguardistas do primeiro filme de Manoel de Oliveira, Douro faina fluvial.  O emprego da  montagem no estilo soviético que tende a conferir significado expressivo à cena muda. A influência  de filmes da década de 1920 sobre a modernidade urbana: ecos  de Waltter Rutmann e de Dziga Vertov no documentário de Manoel de Oliveira sobre a zona ribeirinha do Douro. A utilização de recursos cinematográficos, como  a fragmentação dos planos de curta duração para conferir velocidade e ritmo às imagens, em  sintonia com o gosto futurista. Os esboços narrativos que introduzem a diferença no repetitivo trabalho da marginal duriense: a venda do pescado, o namoro no intervalo do almoço, o atropelamento. A representação simbólica do Estado Novo na  figura do policial.  A metaforização do próprio cinema na imagem recorrente do farol. A conformidade com alguns pontos arrolados pelo Manifesto “A cinematografia futurista”.

MARIANA CUSTÓDIO

UERJ

Almada Negreiros e a plasticidade das palavras

Palavras-chave:

Prosa modernista, Almada Negreiros, Vanguarda em Portugal

Resumo:

José de Almada Negreiros: desenhista, dramaturgo, escritor, ensaísta, ator, pintor, “poeta d’Orpheu futurista e tudo”. Sua vasta e variada produção artística, que apresenta a característica singular de uma polimorfia radical (e em si mesma intervencionista), contribui de modo significativo para a afirmação da estética de vanguarda em Portugal. Se, por um lado, as palavras mostram-se elásticas, submetidas ao limite da tensão irreversível das experimentações em letras e em atos de performance, por outro lado, as imagens plásticas contagiam os seus espaços de  escrita desde a publicação dos primeiros textos. O objetivo desta investigação é o aprofundamento das reflexões acerca da dinâmica dessa inter-relação na obra de Almada Negreiros.

MARIANA MARQUES DE OLIVEIRA

UFRJ

Ecos do legado vanguardista em Vergílio Ferreira

Palavras-chave:

Vanguardas europeias, Vergílio Ferreira, Literatura e outras artes

Resumo:

No seu famoso ensaio "Situação actual do romance" (1965), Vergílio Ferreira afirma: "Sem um valor que a centralize, sem uma ordenação que se lhe imponha, a arte descobriu-se a si própria um valor". A esta afirmativa, segue-se: "Quem não meditou ainda na desvairada fúria com que a Arte do nosso tempo se despedaça? Desde há um século, as inovações artísticas processam-se não pela substituição de propostas, mas pela sua sucessiva eliminação; não pela afirmação de novos valores estéticos, mas pelo desejo desenfreado de levar a negação herdada ao seu mais extremo limite" (p. 171). Tendo Vergílio Ferreira uma obra ensaística que muitas vezes serve de espaço para uma autojustificação e reforço de discussões em torno de temáticas presentes e recorrentes em sua produção romanesca, nota-se que as reflexões que o autor realiza sobre a arte se inserem nos caminhos abertos pelas vanguardas. Desse modo, tais afirmações, ao se referirem direta ou indiretamente às vanguardas europeias, refletem o legado dos movimentos de ruptura do início do século XX. Tendo como premissa que as vanguardas abriram – para não dizer escancaram – vias de construção artística  incontornáveis, de que as revistas Orpheu e Portugal Futurista são símbolos na cultura portuguesa, este artigo busca analisar quais aspectos do legado das rupturas promovidas pelas vanguardas estéticas europeias do início do século XX, em especial o Futurismo, ecoam, de certa forma, na obra de Vergílio Ferreira.  Pretende-se também observar de que modo as vanguardas, em especial o Futurismo, com a sua noção de simultaneidade e sua defesa da multiplicidade de tempos e espaços, por exemplo, cavaram um terreno que a arte do século XX cultivará de variadas formas e que, em Vergílio Ferreira, ecoará principalmente depois que o autor decide pela mudança – para citar um termo homônimo à obra considerada por muitos críticos como o marco decisivo para o seu enveredamento pelas reflexões de cunho existencial – dos rumos de sua produção literária. Desse modo, deve-se observar, sobretudo, de que modo o diálogo interartístico promovido por esses movimentos vanguardistas abriram as portas para as relações que as palavras e as imagens iriam ganhar do início do século e daí por diante e ganhariam, efetivamente, em Vergílio Ferreira.

MARIAROSARIA FABRIS

USP

O cinematógrafo na visão dos futuristas: súmula de várias artes

Palavras-chave:

Futurismo, cCnematógrafo, Vida moderna, Velocidade, Interpenetração

Resumo:

Os futuristas se aproximaram tardiamente do cinematógrafo, apesar de considerá-lo uma linguagem em consonância com as propostas fundamentais de seu movimento. Com efeito, mais de sete anos separam o primeiro manifesto do Futurismo (fevereiro de 1909) de um interesse declarado pela sétima arte, que se explicitou no segundo semestre de 1916, com o filme Vita futurista e um primeiro texto programático, A cinematografia futurista, assinado por Filippo Tommaso Marinetti, Bruno Corra, Emilio Settimelli, Arnaldo Ginna, Giacomo Balla e Remo Chiti.  Essa aproximação tardia não deve nos levar a esquecer de que as várias manifestações artísticas do Futurismo não podem ser analisadas isoladamente. Se formos rastrear em outros documentos o interesse do movimento italiano pelo cinema, veremos que estava presente já no início dos anos 1910. Por exemplo, no Manifesto técnico da literatura futurista (1912), Marinetti, atraído pelo jogo de decomposição/recomposição da realidade que a nova arte permitia, a via como um instrumento a serviço da velocidade da vida moderna e da alogicidade, características do viver futurista. O cinema era exaltado também em O Teatro de Variedades (1913), pois, ao oferecer num único espetáculo visões de pontos geograficamente distantes entre si, subvertia as coordenadas espaciotemporais, num fluxo constante de interpenetrações. Em A nova religião-moral da velocidade (1916), no qual à moral cristã, moderadora dos instintos do homem, era oposta a moral futurista, centuplicadora da energia humana – divinizava-se a velocidade, que habitava vários lugares, dentre os quais “os filmes cinematográficos”. O rastreamento desses elementos atesta que, de fato, na formulação dos vários programas estéticos, literários, artísticos e linguísticos elaborados pelos futuristas, o cinema aparece como símbolo da vida contemporânea. Visto como súmula de várias invenções, capaz de sobrepujar outras formas de comunicação de massa na elaboração e na propagação de novos comportamentos, o cinematógrafo passou a ser considerado um dos grandes símbolos da sociedade contemporânea, pela simultaneidade, pela velocidade e pelo novo ritmo que trazia às artes e à vida.

MARLON AUGUSTO BARBOSA

UFRJ

A decomposição do surrealismo: Cesariny e o informe corpo da tradição

Palavras-chave:

Mário Cesariny, Surrealismo, Informe, Tradição

Resumo:

O poema “Corpo Visível”, do poeta português Mário Cesariny de Vasconcelos (1926 – 2006), publicado em 1950, carrega aparentemente entre o seu título e o seu conteúdo uma contradição: por um lado, o título do poema evoca a visibilidade de um corpo; por outro, na leitura de seus versos, percebemos que as imagens criadas nele são qualquer coisa, menos visíveis. A partir de algumas reflexões necessárias para o entendimento da produção poética de Cesariny, investigaremos questões como a metalinguagem, a intertextualidade, e os procedimentos de linguagem presentes no poema: seus efeitos sobre o leitor e as técnicas que levaram à sua construção – considerando, sobretudo, a decomposição de uma forma poética e a sua relação de diálogo com a tradição literária portuguesa (Camões, Almeida Garrett, Cesário Verde). O objetivo desta comunicação é reivindicar uma teoria do informe que, na poética de Mário Cesariny, funciona como um engajamento crítico; possibilitando uma política da forma, uma ética da troca. Para tanto, alguns teóricos fundamentarão todo esse processo investigativo. Dentre eles citamos: André Breton, Georges Bataille, Georges Didi-Huberman.

MAXIMILIANO GOMES TORRES

UERJ

FEMINISMOS E PROLETARIADO: O PROJETO VANGUARDISTA DE PAGU NO ROMANCE PARQUE INDUSTRIAL

Palavras-chave:

Gênero, Sociedade, Feminismo, Proletariado

Resumo:

Parque Industrial (1933) é o romance de estreia de Patrícia Redher Galvão - mais conhecida como Pagu - e o primeiro romance proletário da literatura brasileira. Escrito sob o pseudônimo de Mara Lobo, nele são retratados os problemas ligados à classe operária paulistana da década de 1920 e o momento político e histórico aparece como o seu personagem principal. Contudo, ao abordar as políticas de gênero, é a condição social da mulher que aparece como o leitmotiv da narrativa. Kenneth David Jackson, tradutor do livro para o inglês, entende o romance como “um importante documento social e literário, com uma perspectiva feminina e única do mundo modernista de São Paulo”. Assim, o feminismo representado em Parque Industrial pode ser acrescido pelo adjetivo “solitário”, pois aparece como um projeto vanguardista na contramão dos ideais do movimento feminista na primeira metade do século XX: o sufragismo e o anarquismo. Nesse sentido, o presente trabalho pretende analisar o romance de Pagu, considerando nos aspectos estéticos - a escrita literária - os ideológicos - o feminismo e o proletariado - que o compõem como um processo de experimentação formal e de denúncia dos valores feministas burgueses.

MIRHIANE MENDES DE ABREU

Unifesp

Por um mosaico textual: o debate sobre o futurismo no Brasil

Palavras-chave:

Crítica, Cartas, Memórias, Futurismo

Resumo:

De valor semântico variado e polêmico, o emprego do vocábulo futurismo foi uma experiência estética, cultural e discursiva no Brasil dos anos de 1920. Presente em todas as etapas de instauração e institucionalização do programa modernista e modernizador, o termo e suas variantes visitaram os debates intelectuais e também o anedotário pejorativo da época, incidindo diretamente sobre a imagem de quem dele se aproximasse. Um exemplo disso é a conhecida repercussão da crônica de Oswald de Andrade “Meu poeta futurista”, uma referência à poética de Mário de Andrade e que gerou, simultaneamente, adesão e repulsa ao autor da Pauliceia desvairada. Diante disso, o objetivo desta comunicação é examinar um mosaico de textos essencial na formalização da linguagem de uma vanguarda que se queria autóctone. A singularidade da vanguarda no Brasil se deu não somente pelo descompasso cronológico com a Europa, mas pelo impulso às discussões dos valores críticos postos em pauta no país daqueles anos. Esses textos são as cartas e as memórias dos principais intelectuais da década de 1920, aqui selecionadas segundo o envolvimento no debate sobre o futurismo no Brasil. Lidas hoje, são diálogos e recordações que sublinham, subjetivamente, o quanto o vocábulo futurismo ocupou lugar ativo nas manifestações programáticas em favor das inovações e retomá-lo por esse ângulo pode ampliar a percepção de um tempo vivido sob a urgência de inovações e desejo de um programa cultural para o país. O corpus da correspondência relevante eleito não é exaustivo e prioriza a interlocução que cerca o nome de Mário de Andrade cujos correspondentes selecionados são Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Moraes, neto, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Das memórias, foram consultados os relatos de Oswald de Andrade, Rubens Borba de Moraes e Mário da Silva Brito. Para melhor compreensão de um e outro caso, acrescentam-se as crônicas de Oswald de Andrade, por entendê-las como uma forma de exposição pública de um vocábulo que validou criticamente a discussão da linguagem sócio-cultural.  Através desse mosaico textual, formula-se a hipótese segundo a qual o universo cultural brasileiro se serviu do futurismo, não como mecanismo de aplicação de seus postulados, mas reelaborando-os como instrumento para problematizar criticamente os modos de diálogo com as vanguardas europeias, o que recairia sobre a dicção reflexiva dos modelos culturais e estéticos que viriam a se concretizar na poética brasileira.

MONICA FIGUEIREDO

UFRJ

A cidade como espetáculo: o romance oitocentista e o futuro que não se cumpriu

Palavras-chave:

Cidade; Eça de Queirós; Romance Realista; Decadentismo

Resumo:

A cidade será sempre um espaço consumidor de imaginário. Paisagem escolhida pela civilização, as cidades acompanharam o processo de evolução humana, transformando-se no espelho que de perto refletiu as mudanças, nem sempre edificadoras, vividas pela humanidade ao longo de sua história. Das ruínas da Antigüidade clássica às metrópoles futuristas, a geografia pública de uma cidade é a institucionalização da civilidade, porque civilidade e cidade partem de uma raiz etimológica comum. O século XIX foi aquele que perpetuou a cidade como espaço essencialmente burguês. É a cidade finissecular que vai aos poucos substituindo os valores públicos do Antigo Regime pelo culto da personalidade, criando uma cultura que centra no indivíduo as determinações de seu próprio destino. A res publica transforma-se num valor do passado e a cidade é agora um lugar que abriga o estranho. O homem individualizado exaltará a intimidade, fazendo com que a sociabilidade entre em crise e a fragmentação é a marca da cidade erguida a partir do século XIX, espaço responsável por uma “fraternidade que leva ao fratricídio” (como definiu Richard Sennett), espécie de eco definitivo – inscrito no corpo da cidade – da falência dos ideais que haviam forjado a Revolução Francesa. O presente trabalho pretende averiguar como as linhas ficcionais do romance da segunda metade dos oitocentos re(a)presentou a cidade referencialmente histórica, transformando-a em espaço privilegiado de ação, cenário problematizado, onde ficcionalmente a História de um tempo em crise foi posta em xeque pelos principais autores herdeiros da estética realista. Partindo da narrativa de Eça de Queirós, pretende-se refletir como a cidade foi vista como espaço onde privilegiadamente se configurou a promessa de futuro, a aposta na modernidade e o apelo vanguardista, expectativas que não conseguiram evitar a sensação de decadência que assolou a experiência urbana no fim dos oitocentos.

MÔNICA GENELHU FAGUNDES

UFRJ

Almada e a dança: gesto, forma e cor

Palavras-chave:

Almada Negreiros, Dança, Forma, Representação

Resumo:

Tempo e movimento são ideias fundamentais para o pensamento de vanguarda, desde as últimas décadas do século XIX até as primeiras décadas do século XX, tendo esses princípios ocupado um lugar central no desenvolvimento científico e na criação artística desses anos de celebração do novo, da invenção e da transformação. Disso dão exemplo a busca impressionista pelo instante; a técnica do pontilhismo e seu dinamismo; a consciência simbolista da passagem do tempo; a poesia moderna e seu compromisso de captar em linguagem o ritmo da vida nas cidades; as séries de Muybridge, tanto experiências fotográficas como estudos da fisiologia do movimento; e, claro, o cinema. Neste trabalho, interessa-nos estudar um caso particular desse enlace: a dança e suas representações, entendidas como sintomas visuais da inscrição de tempo e movimento sobre o corpo, sobre a forma humana – tensionada ao limite da estabilidade, do reconhecimento, da identidade; desafiada em sua naturalidade, assinalada por uma cultura de ousadia e ruptura. Almada Negreiros soube perceber muito bem a importância da arte de dança para os movimentos de vanguarda, tendo mesmo composto um dos mais importantes manifestos do Futurismo Português tomando como mote os Ballets Russes, que chegavam a Lisboa. Sobretudo, porém, Almada deixou-nos corpos em dança em um número significativo de composições visuais e no poema em verso “Mima Fatáxa”, obras que leremos à luz das reflexões sobre dança e escritura de Stéphane Mallarmé e Paul Valéry, e em comparação à pintura de Edgar Degas, com suas famosas bailarinas.

MORGANA RECH

UFRJ

Alberto Pimenta e a estratégia da inexistência como modo de existir

Palavras-chave:

Alberto Pimenta, Inexistência, Existência, Silêncio, Literatura portuguesa

Resumo:

O trabalho consiste em um resumo da primeira dissertação acadêmica realizada em Portugal sobre o autor Alberto Pimenta, defendida por mim, sob orientação da professora doutora Celina Silva, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em outubro de 2013. No trabalho, abordamos a complexidade que se instala em torno da questão do desconhecimento que há em Portugal sobre o autor Alberto Pimenta e sua extensa obra, ou ainda, da sua marginalização/ostracismo. A partir da contextualização, representação e recepção no espaço português considerado “oficial”, buscamos, sobretudo, indicar como a existência de Alberto Pimenta atua a partir de diversas inversões da ordem discursiva, cultural e social.  A título de metodologia, partimos de um diálogo com a hipótese do autor e poeta Pádua Fernandes, segundo a qual Alberto Pimenta se vale de uma estratégia da inexistência aplicada em sua própria produção e em sua atitude como autor. Segundo esta hipótese, o ostracismo em que permanece a referida obra encontrar-se-ia justificada, sendo afirmada pelo próprio Pimenta, que pretenderia, desta forma, acusar a lógica da censura e as complexas relações que se estabelecem na dinâmica entre poder e saber, na tradição literária ocidental. A partir daí, um aprofundamento nas bases teóricas de Pimenta, suas principais influências e sua persistência no inclassificável, favoreceram uma luz sobre a existência do autor como artista, em sua vontade de criar e, deste modo, existir. Em outras palavras, procuramos mostrar que Alberto Pimenta existe, não existindo, ou, em suas próprias palavras, dar “alguma existência à sua inexistência”. O trabalho inaugura também uma entrevista realizada presencialmente com Pimenta a respeito das questões tratadas na pesquisa e comentadas por ele de modo a dialogar com as conclusões. Na comunicação, pretendo sumarizar o percurso realizado no referido estudo, dando notícias também da produção atual de Pimenta, que ainda consegue manter alguma correspondência comigo, apesar de suas fracas condições de visão. A motivação para a comunicação se funda na importância de abordar uma obra como a de Pimenta em um congresso sobre vanguardas.

NÁDIA BATTELLA GOTLIB

USP

Clarice Lispector: para uma história da recepção

Palavras-chave:

Clarice Lispector, Ficção, Jornalismo, Cítica, Biografia

Resumo:

Como Clarice foi lida pelos seus primeiros críticos? Qual o legado dessas primeiras incursões de leitura para os leitores de hoje? É o que pretendemos desenvolver, a partir da consideração de textos sobre a escritora publicados na imprensa e em livros a partir de 1944, procurando examinar especificidades dessa ficção de Clarice Lispector produzida durante trinta e três anos, mas à luz de ‘modos de ler’ que foram se configurando nesse período de produção, que teve antecedentes marcantes, como a eclosão do modernismo e outros ‘ismos’ nos anos 1920 e implicações pós-modernas nas décadas seguintes. O que essa ‘tradição’ nos legou, em termos de procedimentos de leituras, ou seja, quais os resultados efetivos dessa massa crítica?

PALOMA RORIZ

UFF

Pensar sobre as vanguardas, entre o contemporâneo e o tardio

Palavras-chave:

Anacronismo, Poesia contemporânea, Vanguardas

Resumo:

Em seu livro De volta ao fim, Marcos Siscar refere-se ao conhecido ensaio de Haroldo de Campos, “Poesia e modernidade”, como uma espécie de acontecimento crítico, pelo modo como a formulação acerca do esgotamento das vanguardas integra, em Haroldo, uma operação discursiva pela qual, a partir dos anos 1980, “passamos a dar sentido ao nosso presente e da qual ainda estamos tirando consequências”. Problematizando a ideia de diversidade como chave de leitura para a situação da poesia contemporânea, Siscar refere-se ao desafio de trabalhar os conflitos e dilemas impostos por um movimento de abertura e inacabamento naquilo que entendemos por poesia e por sua inscrição no presente. Neste sentido, cabe então refletir em que medida o enunciado do fim das vanguardas, ou do esgotamento dos paradigmas vanguardistas, aponta para um ponto possível de acesso ao contemporâneo. Tomando esta perspectiva como ponto de partida, o propósito desta comunicação é procurar pensar de que forma a noção de anacronismo, trazida por autores como Georges Didi-Huberman e Edward Said, pode se desenhar como um possível dispositivo teórico para compreender a condição paradoxal do contemporâneo em poesia, em seu modo de dissociação, reconfiguração e consciência catastrófica e irônica do presente e de sua relação com o passado. É possível compreender em práticas artísticas contemporâneas uma condição paradoxalmente tardia de vanguarda? Didi-Huberman, em sua ideia de anacronismo aberto, aponta a necessidade de descobrir as sobrevivências dos elementos do passado no presente. Partindo de uma noção tomada de Adorno, Edward Said compreende o caráter tardio de uma obra sobretudo como um modo refratário e anômalo de acionar o tempo presente. Fazer anacronismo, em sua dimensão de intransigência, dificuldade e “contradição em aberto”, assim como em seu desejo de fazer referência à história, pode significar também recolher as sobras, os restos da experiência histórica, como um modo refratário e anômalo de acionar o tempo presente.

PATRÍCIA SIMÕES ARAUJO

UFRJ

Boa noite, Senhor Soares: do desassossego solitário à aventura do amor

Palavras-chave:

Bernardo Soares, Mário Cláudio, Biografia romanceada, Autorreferencialidade, Discurso amoroso.

Resumo:

Esta comunicação pretende observar como a prática amorosa desenvolvida por Mário Cláudio em Boa noite, senhor Soares, na releitura poética dos fragmentos do Livro do Desassossego, atualiza um prazer já vivido e confirma a fatalidade do inacabamento da obra de arte, apontando para uma das vertentes de vanguarda que rompeu com o modelo cartesiano de escrita em nome da fragmentação e do dilaceramento. Mário Cláudio, leitor apaixonado de Fernando Pessoa e de tantos outros artistas que elegeu como objetos de sedução, parece ter estabelecido com cada um deles um particular pacto de fidelidade que o impele à escrita biográfica como modo de revisitação e de empatia. Na novela, o escritor transita entre a pesquisa e a re-criação, a partir da autobiografia sem factos de Bernardo Soares, não lhe sendo possível outra escolha senão a de optar pela ficção, reforçando seu interesse pela verossimilhança interna de uma vida/obra, uma obra/vida que sempre desejou ser uma figura de romance. Fazendo do diálogo intertextual um gesto de metamorfose, Mário Cláudio parte de um outro ponto de vista, deslocando a voz narrativa que antes pertencia a Bernardo Soares para um personagem absolutamente secundário na escrita pessoana, o moço do escritório que ganha nome (António), voz e laços familiares, e incorpora não apenas a função de narrador, mas sobretudo a do sujeito seduzido pelo solitário semi-heterônimo. Ora, se o conceito de semi-heteronímia aproxima a projeção ficcional – Bernardo Soares – do autor Fernando Pessoa, ousamos dizer que a relação entre ficção e realidade, entre autoria e narração se multiplica no livro de Mário Cláudio como uma espécie de cascata ou de outra sala de espelhos – para recuperar o sintagma tão caro ao poeta de Orpheu. Teríamos Mário Cláudio, que elege António, que conta a um escritor a história do seu encontro com o senhor Soares, ele próprio fantasma a meio do poeta, de tal modo que a sedução Mário Cláudio/Fernando Pessoa aparece intermediada por um personagem e pelo roubo do semi-heterônimo, num não escamoteado jogo de afetos.  Ciente de que nenhuma biografia foi ou será capaz de dar conta da inteireza de uma pessoa ou de um personagem, Mário Cláudio escreve a novela — declaração de amor — e perverte a biografia, ao tornar possível não apenas uma relação de afeto entre António e o solitário Senhor Soares, mas principalmente conferindo ao moço o importante papel de co-autor da escrita biográfica. Nesse exercício desviante, diálogos, devaneios e desejos, elementos ausentes de uma narrativa biográfica tradicional, serão reinventados e legitimados como parte da vida do personagem biografado.

PAULO RICARDO BRAZ DE SOUSA

UFF

Na vanguarda da artilharia: Camões e D. Sebastião em campo de batalha, ou quando Os Lusíadas inventaram o futuro da poesia portuguesa

Palavras-chave:

Luís de Camões, Vanguarda, Servidão

Resumo:

Os Lusíadas, de Luís de Camões, é um poema voltado para o futuro: dado observável tanto no plano mítico, precisamente no que diz respeito à destinação de um povo (os da geração de Luso) que nasce do trânsito humano/divino ensejado na Ilha de Vênus nos Cantos IX e X, quanto no plano histórico, quando o Poeta, no final de sua narrativa, adverte D. Sebastião do projeto exploratório da invasão do Norte da África. Ambos os movimentos conduzem, quando articulados, à constituição de um imaginário simbólico que Eduardo Lourenço, em seu incontornável ensaio “Psicanálise mítica do destino português”, designou como a “conjunção de um complexo de inferioridade e superioridade”. Isto porque é no encontro destas duas perspectivas apresentadas no poema que mais flagrantemente se dá a ver o descompasso entre mito e História, ainda que estes dois elementos se confundam prolificamente no caso português, como o próprio Lourenço e muitos outros já disseram. É nesta defasagem, entretanto, que se situa o aspecto crítico da narrativa lusíada. Como sabemos, naquele mesmo ano fatal de 1580, pouco depois de Camões morrer, D. Sebastião de fato invade o Marrocos e desaparece no areal de Alcácer Quibir. “Como a pressaga mente vaticin[ou]”, o poema futuro que é Os Lusíadas amarra-se como sinistra profecia ao real, e a palavra poética de Camões é o verbo que se faz carne, legando aos poetas vindouros o mistério de uma servidão na forma de um reiterado canto de morte. Pois que a fracassada empreitada de D. Sebastião em terras africanas não só é a pá de cal para a conjuntura da decadência portuguesa neste final de século XVI (que resultará em sessenta anos de jugo castelhano), como é, na observação de um quadro histórico geral, o primeiro forte indício da estruturação simbólica de um imaginário cultural forjado por “um povo naturalmente destinado à subalternidade”. Certo aspecto diabólico da poesia camoniana consiste nesta espécie de contracanto enredado nas malhas do texto que, afinal, é o canto mesmo da derrota. O futuro (da poesia portuguesa) inventado por Os Lusíadas se manifesta como o eterno retorno de um trauma, de que o falhado desejo de grandeza (convertido em estertorado testemunho da pequenez) é a forma privilegiada. Camões esteve na vanguarda do seu tempo, antecipando o nosso, porque alevantou um canto menor, destinado à queda.

PEDRO SANTA MARÍA

U. Nova de Lisboa

«Futurismos imperiais e futurismos pós-coloniais: De Marinetti ao Portugal Futurista, o Estridentismo de Maples Arce e o Pau-Brasil de Oswald de Andrade.»

Palavras-chave:

Futurismos, Manifestos, Poéticas contemporâneas, Pós-colonialismo

Resumo:

Através dos manifestos fundamentais do primeiro Futurismo, o italiano, e dos futurismos ibéricos e latinoamericanos posteriores, coloniais e pós-coloniais, problematizaremos alguns dos aspectos das suas poéticas respectivas: os antecedentes românticos e simbolistas, a tradição da ruptura, o estabelecimento de um paradigma de representação contemporâneo em que a contramimese grotesca advém eixo estrutural da criação artística.

PEDRO SEPÚLVEDA

U. Nova de Lisboa

Pessoa, autor (in)édito? – 3: Entre o real e o potencial: uma edição digital de Fernando Pessoa

Palavras-chave:

Autor, Edição, Tradição crítica

Resumo:

A “Edição Digital de Fernando Pessoa – Projetos e Publicações” é uma iniciativa resultante de uma colaboração entre investigadores do Projeto Estranhar Pessoa, sediado no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição da Universidade Nova de Lisboa (IELT, FCSH-UNL; cf. http://estranharpessoa.com/), e do Cologne Center for eHumanities (CCeH), da Universidade de Colónia. O foco da edição, que será disponibilizada brevemente no endereço http://www.pessoadigital.pt/, é o contraste entre a potencialidade dos projetos editoriais de Pessoa, expressa em particular nas suas inúmeras listas de projetos, e a realidade das publicações efetuadas pelo autor em vida. Apesar de ter publicado relativamente pouco em vida, Pessoa foi um autor para o qual a projeção de diversas ideias de edição e publicação da obra assumiu um caráter decisivo, contrariando a ideia corrente de um poeta que procurava o anonimato. Os seus inúmeros projetos editoriais não só projetavam a obra para futura publicação, como lhe conferiam uma organização própria, permitindo ler tanto textos do espólio como publicações em vida enquanto partes de um mesmo todo. A edição digital reúne pela primeira vez o corpus das listas editoriais elaboradas entre 1913 e 1935, incluindo ainda, numa primeira fase, a poesia publicada em vida pelo poeta, em jornais e revistas, entre 1914 e 1935. A edição irá contribuir para um mapeamento do espólio do poeta, traçando uma cronologia que tem por base ideias pontualmente relevantes de organização editorial da obra, seja através da elaboração de uma lista de projetos ou de uma publicação. O portal apresenta documentos transcritos segundo as normas internacionais TEI, oferecendo diversas modalidades de transcrição dos textos, índices e ligações com os respetivos fac-símiles. Seguindo o foco da edição, os diversos modos de aceder aos textos têm como principal propósito facilitar um percurso histórico e cronológico pelos projetos e publicações do poeta. Este percurso permite entender melhor o contexto de criação das principais obras, nomeadamente a sua associação a determinados núcleos, como os ismos, ou a certos títulos ou nomes autorais, qualquer um destes elementos funcionando como categorias organizacionais e delimitadoras da obra no seu conjunto.

PIERO CECCUCCI

UNIVERSITÀ di FIRENZE (UNIFI)

Entre poesia, grafismo e cinema.  A experiência futurista di Guilherme de Almeida

Palavras-chave:

Guilherme de Almeida, EXperiência, Futurista

Resumo:

Creio que a experiênça futurista de Guilherme de Almeida, além de qualquer referência en passant de uns críticos ou ensaistas, esteja toda por estudar, porque, para mim, como parece ou, pior, se afirma, não é tão inconsistente nem sequer insignificante, que não valeria a pena estudar ou aprofundar. Na verdade, para reforçar a hipótese, acho que é toda a obra literária e plástica do Guilherme de Almeida que – salvo algumas louváveis exceções – sofre de um inexplicável acantonamento, para não falarmos de esquecimento incompreensível, para não dizermos insustentável. O presente trabalho, que vou apresentar nesta ocasião eleta e deveras única, põe-se como primeira tentativa de reconsiderar a oportunidade de nos encaminharmos para uma exegese mais pontual e aprofundada e, possivalmente exaustiva, da obra toda do poeta paulista, sem nos limitarmos só ao aspeto futurista.

RAFAEL SANTANA

UFRJ

Mário de Sá-Carneiro: poeta cubo-futurista

Palavras-chave:

Mário de Sá-Carneiro, Modernismo, Cubismo, Futurismo

Resumo:

Trata-se de artigo que visa a pensar a gênese da poesia no universo artís- tico de Mário de Sá-Carneiro, poeta que empreende a sua crítica literária no seio da própria escritura ao fazer dela um espaço de reflexão sobre as especificidades da arte. Elegendo como precursoras algumas figuras hiper- -representativas da modernidade tais como Baudelaire, Rimbaud e Mallar- mé, Sá-Carneiro inscreve a sua poesia na esteira de toda uma linhagem de poetas transgressores, para quem a escrita se configura sobretudo como um corpo a corpo com a linguagem.

RENATO CORDEIRO GOMES

PUC-Rio

Rastros de um futurismo tropical: João do Rio contemporâneo de Marinetti

Palavras-chave:

Futurismo, Modernização, João do Rio,  Marinetti

Resumo:

Não há provas de que João do Rio, em sua viagem à Europa em 1908-1909, tenha tomado conhecimento do Manifesto de Marinetti, mas certamente testemunhou o clima que animava os tempos modernos nas cidades européias visitadas. Por coincidência (?) na mesma época é tocado pelo mito moderno da máquina, que afeta o imaginário, motivando expressivo número de crônicas, depois recolhidas em parte em livros como Cinematographo (1909) e Vida vertiginosa (1911), Nessa produção, depreendem-se rastros semelhantes ao do Manifesto Futurista de 1909. A proposta busca testar essa hipótese, seguindo pistas que permitem perceber temática e procedimentos discursivos anteriores ao programa do modernismo de 1922.

RITA PATRÍCIO

Universidade do Minho

Pessoa, autor (in)édito? – 2: Projectos e circunstâncias

Palavras-chave:

Autor, Edição, Tradição crítica

Resumo:

Pessoa publicou diversos textos críticos e de reflexão literária (estreou-se, recordemo-lo, nas páginas da Águia com os artigos sobre a nova poesia portuguesa e publicou textos fundmentais como “Apontamentos para uma estética não-aristotélica” ou “António Botto e o ideal estético em Portugal”, decisivos para a compreensão do seu ideário estético). Para além do publicado pelo autor, as edições de Páginas de Doutrina Estética, em 1946, das Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, em 1966, e das Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, um ano depois, cedo deixaram clara a existência de projectos inacabados e de uma esparsa produção ensaística de índole teórica e crítica. Este corpus crítico é desde logo marcado pelo carácter fragmentário, pela dispersão e pela heterogeneidade tipológica. Posteriores edições (Pessoa por conhecer e Pessoa Inédito) permitiram-nos dar conta do interesse de muitas outras reflexões pessoanas. Se recentes edições têm vindo a tentar completar e a especificar as edições inaugurais (é o caso, por exemplo, de Erostratus), o certo é que no actual panorama da edição pessoana, relativamente à dimensão teorética, ensaística e crítica da produção do autor, o corpus de que se dispõe é ainda uma parte de um todo incompleto, mas cuja incompletude podemos e devemos ainda conhecer muito melhor. A tradição crítica tem vindo a ler a dimensão estético-ensaística da obra pessoana de diferentes modos, reflectindo e determinando a tradição editorial que dela se tem vindo a ocupar. A presente comunicação pretende discutir o lugar na obra pessoana que podemos atribuir a alguns projectos crítico-ensaísticos que Pessoa não concretizou. Para essa discussão, partirei da análise da tradição editorial dos textos sobre estética e crítica literária, inicialmente publicados no volume organizado por Jacinto Prado Coelho e Georg Lind. Discutirei depois alguns projectos em particular, como a intenção de reeditar os textos sobre a nova poesia portuguesa inicialmente publicados em 1912.

ROBERTA A P DE FIGUEIREDO FERRAZ

USP

A saudade de automóvel: Teixeira de Pascoaes e o Futurismo

Palavras-chave:

Teixeira de Pascoaes, Saudade, Futurismo, Reação, Fernando Pessoa

Resumo:

É sabido que, em diversos apontamentos críticos, publicados desde a sua passagem pela revista A Águia, Teixeira de Pascoaes recorrentemente reafirma o seu distanciamento poético em relação à vanguarda, nomeadamente o futurismo. Partindo de uma frontal negação do futurismo, como podemos ler nos aforismos de Verbo Escuro, de 1914 – portanto, anterior ao Orpheu, de 1915 – à edição da obra A Beira, Num Relâmpago, de 1916, podemos entretanto notar relevantes mudanças na postura do autor.  A obra de 16, um tanto quanto ignorada pela crítica, mostra-nos muito mais do que um relato de viagens pela região portuguesa da Beira. Embora o texto em prosa se ocupe demasiadamente da descrição daquela paisagem – paisagem cara ao autor –, o que lemos em seu interstício é uma experimentação poética. Em nossa leitura da obra pascoaesiana, consideramos pertinente a sua abordagem integral, lendo-a como uma obra única, regida pela ‘poética da saudade’, nome que Pascoaes confere ao seu contínuo exercício de escrita. Dentro da obra, o livro de 16 é aquele ‘passo estranho’, mas inovador, em que Pascoaes acolhe a experimentação da ‘saudade (a bordo) de automóvel’, interessando-lhe, propriamente, os modos como se aliam e se desarticulam a sua poética e o atravessamento da velocidade pelo campo das sensações. Ou seja, podemos ler, nesta obra pós-Orpheu um testemunho ambíguo da relação entre Pascoaes e sua contemporaneidade artística. O conflito entre a visão saudosa (transfigurada sempre pelo espectro e pela ausência, regida pela imaginação cadenciada ao ritmo contemplativo do sujeito) e a visão veloz (que, experimentada a partir do automóvel,  sobrepõe o exterior forjando uma realidade desvinculada do desejo meditativo e do controle das imagens pelo sujeito) faz da obra de 16 um exemplo interessantíssimo sobre a ‘invasão’ das vanguardas à sensibilidade poética de um autor que, deliberadamente – e no melhor das acepções –, sabia-se herdeiro do Romantismo. Porém, sendo leitor de seu tempo, não se furtou de, no corpo do texto, dispor-se ao atravessamento de novas estéticas, encontrando, especialmente em relação ao futurismo, veementes divergências mas também sutis fascínios.

ROBERTO VECCHI

Università di Bologna

Eventualidades futuristas: modernidades excêntricas do “futurismo português”

Palavras-chave:

Evento, Futurismo português, Modernidade periférica

Resumo:

A inscrição de Portugal futurista no main stream do futurismo europeu é problemática e desde sempre marcada por alguma impropriedade. A este respeito, a crítica assinalou com insistência a emergência de anomalias, na redundância de um traço irredutível à moldura geral dos congéneres europeus, em particular inspirados no pseudoparadigma marinettiano. Leituras críticas canônicas que foram realizadas, como por exemplo a de um “futurismo mental” português (Stegagno Picchio) em contraste peculiar com a própria noção coletiva do movimento da vanguarda representam esforços excelentes de regularização do que, no entanto, resiste e não se deixa normalizar: a exceção de uma ideologia problematicamente futurista de uma modernidade diferencial como aquela portuguesa, em relação aos ícones modernos conclamados pelo futurismo europeu.  No entanto, para apreender uma ontologia própria do futurismo português, seria necessário rastrear os inúmeros indícios que se disseminam pelo número avulso de “Portugal futurista” e pela própria encenação do futurismo, em Lisboa, em abril de 1917, na “I conferência futurista”. O macroscópico e ao mesmo tempo o mais rico tema por discutir, nestas séries falsificadas, é a ideia de um futurismo como evento, como uma potência que se isola de qualquer contexto próprio de modernização: esta desrealização de uma ideologia da modernidade, que subsume e parodiza ideologias alheias e estranhas, leva a analisar o derivado do evento, a eventualidade, em que o futurismo se autoreconhece (“Portugal futurista” como “publicação eventual”). Na tensão entre evento e eventualidade (e com Badiou podemos pensar, de um ponto de vista teórico e também político, que e evento libera a existência do inexistente) o futurismo português mobiliza um arsenal inesperado e desarmante, sobretudo quando referido a um conceito que é protagonista, desde o século XIX, do pensamento contemporâneo, numa chave que permite desestruturar a ontologia: o evento. E a sua eventualidade como presença (futurista) da vertigem de um vazio (moderno).

SERGIO ALEXANDRE NOVO SILVA

UFRJ

Uma vanguarda chamada Arcimboldo

Palavras-chave:

Vanguarda, Surrealismo, Século XVI, Paradoxo, Arcimboldo

Resumo:

Em dezembro de 1936, Albert H. Barr, Jr. organizou uma exposição no The Museum of Modern Art de Nova York (MoMA) chamada Fantastic Art, Dada, Surrealism. Essa exposição, extremamente polêmica pelo simples fato de juntar dois grupos de vanguarda antagônicos e categorizá-los igualmente de arte fantástica, resgatou para a mesma discussão – a batalha para decidir o que é a nova arte do século XX – um artista emblemático do final do Renascimento: o pintor milanês Giuseppe Arcimboldo (1527-1593).  Arcimboldo, cuja obra em grande parte foi feita durante o seu trabalho como retratista oficial da corte esotérica dos Habsburgos do século XVI é considerado como um precursor das vanguardas; mais precisamente, do surrealismo. Sua influência retorna com tanta força que é possível ver traços e até pastiches seus nas obras de figuras importantes do século XX – como Salvador Dalí, René Magritte e Man Ray. Assim, caso Borges nos tenha ensinado bem que o olhar para o passado é sempre corrompido pelo presente, que, na obra dos precursores, se reflete a assinatura dos contemporâneos, não se pode mais enxergar o trabalho desse pintor milanês sem botar uns bons óculos de grau – de preferência, os mais irreverentes. Entretanto, não pretendemos, aqui, procurar nos artistas de vanguarda os mais variados traços arcimboldescos. A presente comunicação é mais uma proposta de olhar para esse pintor – infelizmente não reconhecido também como poeta – e ver que já no seu tempo existia uma nova proposta de se fazer arte. Essa nova perspectiva, essa nova maneira, que vem logo após a ruptura entre a perspectiva linear dos primeiros renascentistas, é completamente tecida de substratos que vão se refletir no contemporâneo – como a comparação/batalha (paragone) entre pintura e poesia (ut pictura poiesis) e os estudos mais esotéricos da cabala e da alquimia. Seus poemas (tantos os de autoria duvidosa, quanto os de outros autores contemporâneos seus que dão voz aos seus quadros) se tornam, portanto, a maneira como podemos tentar perceber a proposta explicitamente oculta (passe o oximoro)de um jeito novo de fazer arte e de ver o mundo. Como Roland Barthes já havia percebido em seu ensaio chamado Arcimboldo ou retórico e mágico, Arcimboldo é um operário da língua. E é nesse ato de operar, permutar e combinar utilizando a língua e seus recursos mais potentes – como a metáfora, a metonímia e a ironia – que se desenvolve uma percepção do mundo em transmutação; ou seja, de uma força que pode mudar, subverter, a realidade (magia).

SILVIO RENATO JORGE

UFF

Vanguardas e autoritarismo: implicações políticas

Palavras-chave:

Futurismo, Salazarismo, “Política do espírito”, António Ferro

Resumo:

Pensar a feição portuguesa do fascismo no século XX – ou seja, o Salazarismo – e as formas como sua ideologia se sedimentou no país por tantos anos implica refletir acerca do modo como o regime soube se apropriar de manifestações populares e artísticas potencialmente inovadoras para, subvertendo seus princípios ou mesmo acentuando determinadas características que já neles estavam presentes, aplacar o seu potencial transformador. Interessa-nos discutir, portanto, no texto a ser apresentado, a forma como o regime se aproximou da literatura, bem como de outras expressões artísticas, tendo por ponto de partida o Futurismo. Para tanto, recorreremos a uma discussão sobre a “política do espírito” levada adiante, no Secretariado de Propaganda Nacional, por António Ferro, escritor ligado ao projeto de Orpheu quando ainda jovem. Seu interesse pelo Futurismo como corrente estética moldou notadamente a política cultural da primeira fase do Estado Novo, sobretudo a partir de um intricado jogo que relacionava o forte nacionalismo passadista, responsável por idealizar cavaleiros e navegantes, a uma perspectiva modernista, que delimitaria, por exemplo, o grafismo da propaganda oficial do regime, bem como a arquitetura de então.

SIMONE PEREIRA SCHMIDT

UFSC

NEGRITUDE COMO GESTO VANGUARDISTA OU  DE COMO UM GESTO SE DESDOBRA PARA MUITO ALÉM DE SEU TEMPO

Palavras-chave:

Negritude, Poesia, Canção, Gênero, Raça

Resumo:

Tomando como ponto de partida a obra de Aimé Césaire em sua decisiva formulação do conceito de negritude, bem como em sua relação com os movimentos de vanguarda europeus, proponho uma reflexão sobre os desdobramentos da negritude em diferentes momentos históricos, nos quais o conceito é ressignificado através de interpretações que atendem às demandas políticas e culturais de cada contexto. Assim, meu texto pretende enfocar três vozes poéticas que, de maneiras diversas, fazem ecoar os princípios da negritude, reinterpretando-a à luz de suas  agendas específicas: Noémia de Sousa inserida no ambiente  português dos anos 50, junto aos Estudantes da Casa do Império; Nina Simone interpretando os apelos do Movimento pelos Direitos Civis nos EUA dos anos 60, e , finalmente, a  cantora Luedji Luna, ao retomar e ressignificar  questões centrais do mesmo tema no contexto brasileiro pós-ações afirmativas.

SOFIA DE SOUSA SILVA

UFRJ

Rés do chão

Palavras-chave:

Mário Cesariny, Modernidade, Poesia contemporânea

Resumo:

A comunicação pretende examinar algumas das relações que a poesia de Mário Cesariny, expoente do surrealismo em Portugal, estabelece com outras poéticas em vigor à época da publicação de seus primeiros livros, nos anos 1950. Gestos como o de “simplificar Álvaro de Campos”  e “reduzi-lo ao voto de um barco para o Barreiro”, do poema “Louvor e simplificação de Álvaro de Campos”, publicado em fragmento no livro Nobilíssima visão, estabelecem relações tanto com a poesia de Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro, quanto com a de Cesário Verde e a do movimento neorrealista, então muito forte na literatura portuguesa. Situando-se já depois do fim da tradição, em plena Modernidade, Cesariny parece encontrar-se “em melhor posição” em relação aos que testemunharam o momento de crise, como afirma Hannah Arendt nos anos 1960, em Entre o passado e o futuro. A poética que se dedica a construir, onde o real quotidiano e o desejo são eixos privilegiados, parece encontrar seus melhores leitores entre poetas contemporâneos, que buscam uma escrita ao rés do chão.

TAMY DE MACEDO PIMENTA

UFF

Do jogo infantil à poesia: collage na poesia de Rui Pires Cabral

Palavras-chave:

Colagem, Contemporaneidade, Rui Pires Cabral

Resumo:

Conforme salientou Antoine Compagnon (2013), o exercício do recortar e colar com as mãos remonta ao jogo infantil que, sendo anterior à escrita, constitui-se como experiência fundamental com o papel, da qual “a leitura e a escrita não são senão formas derivadas, transitórias, efêmeras” (COMPAGNON, 2013, p.11). Originalmente relacionada a uma forma de arte popular e lúdica, a colagem (collage) foi apropriada por movimentos vanguardistas do início do século XX, ganhando contornos específicos de acordo com cada linguagem artística. Inaugurada pelos cubistas, através da mistura de materiais no canvas efetuada por Picasso, Bracque e Juan Gris, a técnica também foi amplamente utilizada pelo Surrealismo, Futurismo, Dadaísmo e, posteriormente, pela pop art britânica e norte-americana entre os anos 50 e 60.  Apesar de ter alcançado maior visibilidade nas artes plásticas, a colagem teve um papel importante em todas as formas de arte modernistas, incluindo a poesia. Como aponta a crítica Marjorie Perloff (1998, s/p), “coordenação em vez de subordinação, semelhança e diferença em vez de lógica ou sequência ou até mesmo classificação – esses são os elementos da colagem verbal”, elementos esses que, a partir do modernismo, se fizeram presentes em variadas obras poéticas. Com o advento da computação gráfica e do vídeo digital, a colagem passou a ser usada na propaganda, editoração de livros e revistas, produção de videoclipes e filmes, dentre outras áreas, mas seus rastros ainda podem ser encontrados nas artes e na poesia.  Nesse sentido, nossa comunicação se propõe a fazer um breve histórico da collage desde seu advento no mundo artístico no início do século e, sobretudo, discutir sua presença na poesia contemporânea por meio da obra poética de Rui Pires Cabral, poeta português que combina “Matéria-prima verbal e visual das mais variadas natureza, idade e proveniência, que rasg[a] e combin[a] para chegar a qualquer coisa nova em que palavra e imagem se iluminem reciprocamente, qualquer coisa inteira e coesa que só exista pela inter-relação dos seus elementos, por mais contrários ou incompatíveis que possam parecer à partida” (PIRES CABRAL, 2016, p. 340).

TATIANA PEQUENO DA SILVA

UFF

Llansol ainda e depois

Palavras-chave:

Maria Gabriela Llansol, Diários, Poder

Resumo:

A obra de Maria Gabriela Llansol (1931-2008), ainda que inconfortável, permanece suscitando inúmeras discussões a respeito da sua textualidade, fruto de uma guinada da concepção de narratividade. Objetivando dar prosseguimento às questões derivadas da tese que escrevi, “Um canto humano de animal em consonância com a Terra Prometida”: aspectos políticos da obra de Maria Gabriela Llansol, em 2011, opto, agora, por privilegiar o gênero diarístico da autora. Assim, esta apresentação tenciona, fundamentalmente, discutir em que medida o “projeto de fulgor” llansoliano corresponde a uma reelaboração do Mundo, a partir da abertura de novos universos reais em que se entra mediante processos de potencialização de uma escrita comunitária que luta contra a pobreza e miserabilidade ética dos Príncipes. Como contraponto e provocação, será importante investigar como os seus diários publicados - Um Falcão no Punho (1985), Finita (1987), Uma Data em Cada Mão (2009) e Um Arco Singular (2010) - pretendem tanto familiarizar o leitor com o seu projeto ético (porque político, porque comunitário) quanto guiá-lo (norteá-lo, direcioná-lo) nesse processo combativo que é o da leitura. Como consequência destas proposições, é provável que seja preciso lidar com os mecanismos de poder e autoridade que surgem na obra de Llansol, na medida em que são localizáveis nos diários (e não só apenas neles) norteamentos e modos de condução para significados e leituras desses textos. Outrossim, o que é motivo de problematização na diarística llansoliana não é apenas o lugar de uma hipotética não-ficção, mas sobretudo o gerenciamento estético que acaba surgindo e determinando os encaminhamentos da leitura, o que muitas vezes influencia a própria fortuna crítica sobre tal obra, inviabilizando-a, por exemplo, sob certas perspectivas epistemológicas. A metodologia de trabalho seguida será a bibliográfica, baseada tanto na leitura quanto na análise do texto llansoliano, relacionando-o, sempre que possível, a reflexões teóricas já formuladas por Silvina Rodrigues Lopes, Pedro Eiras, Jorge Fernandes da Silveira, dentre outros. Não obstante, é fundamental reconduzir, reler e atualizar, na medida do possível para um ensaio apresentado oralmente, as referências teóricas (igualmente chamadas de Figuras) que Maria Gabriela Llansol evoca para autenticar seu trabalho de composição e sua filiação estética, o que também é largamente explicado e defendido por ela em Onde vais, Drama – Poesia?(2000), por exemplo. Finalmente, para orientar teoricamente o problema do poder e da autoridade no espaço literário llansoliano, farei uso de Força de Lei, de Jacques Derrida, e de Regras para o parque humano, de Peter Sloterdijk.

TERESA CRISTINA CERDEIRA

UFRJ

Mário Cláudio e o exercício literário do cubismo em Amadeo

Palavras-chave:

Cubismo, Vanguarda, Amadeo, Mario Cláudio, Relações intersemióticas

Resumo:

Que a autobiografia ficcional de Amadeo de Souza Cardoso, escrita por Mário Cláudio em 1984 sob o título elíptico de Amadeo, recupere em ficção a produção plástica do pintor português – seja através de ecfrases passíveis de identificação seja através de descrições literárias que, em sentido inverso, compõem novas telas mentais – é fato sabido a que outras vezes já me referi, acompanhada, aliás, de uma porção considerável da melhor crítica sobre a sua obra. O que eu gostaria de apontar para além disso será o fato de que a escrita mesma de Mário Cláudio, com sua sintaxe tão especial, que surpreende a leitura desinstalando-a das expectativas habituais do padrão normativo da língua, constitui uma montagem muito próxima do cubismo, em que, por exemplo, as inversões estruturais da frase narrativa pudessem evocar os deslocamentos dos objetos na pintura, ou os agenciamentos dos blocos sintáticos, que se vão somando sem obedecer a critérios regulares, mais próximos de uma estrutura poética do que da narrativa, pudessem mimetizar a sintaxe pictural do cubismo feita mais de uma coordenação de elementos do que de uma subordinação com direito a privilégios temáticos e estruturas de profundidade e perspectiva. Em suma, ousaria apostar que o impacto sintático na leitura de Amadeo não produz de modo algum uma reminiscência latinista como sucede, por exemplo, na fruição de obras neoclássicas, mas, ao contrário, age na linha de uma vanguarda da escrita, que se recusa a ser obediente ao “fascismo” da língua da comunicação (BARTHES, 1978), e, para o caso deste romance-biografia de um pintor cubista, funciona como um exercício de miragem de significantes plásticos e verbais, como a mostrar – à maneira do narrador de Pierre Ménard – que uma mesma sentença, escrita em tempos diversos e de diversa autoria, ganha valores também diversos apesar da sua aparente identidade formal.

VALCI VIEIRA DOS SANTOS

UNEB

A veia vanguardista de Jorge de Lima na cena literária do poeta Viriato da Cruz

Palavras-chave:

Vanguarda, Diálogo intercultural, Jorge de Lima, Viriato da Cruz

Resumo:

A vanguarda é, como se sabe, tudo aquilo que prepara, anuncia e precede. No campo dos estudos poéticos, a vanguarda tem encontrado um terreno fértil, talvez pelo fato de a poesia se constituir nesse espaço, por excelência, onde a linguagem é apurada e potencialidades expressivas concretizadas. Nesse sentido, é possível entender o porquê de os poetas estarem sempre em busca do novo, sempre perseguindo novas formas e estruturas de expressão, as quais são adicionadas à linguagem da emoção humana. No âmbito da literatura brasileira, não são poucos os poetas que se arvoraram em torno da reinvenção poética, imprimindo-lhe sua veia transgressora. Jorge Matheus de Lima, poeta alagoano, faz parte dessa plêiade. Para o crítico Gilberto Mendonça Teles, a obra poética de Jorge de Lima é um verdadeiro caleidoscópio, ou seja, há um universo e aprofundamento de temas, que vai desde a arte de poetar com os parnasianos e simbolistas, a pensar na ideologia científica dos positivistas, bem como a dialogar com as festas religiosas que vão ganhar espaço significativo em seu imaginário de poeta. Ofazer poético de Jorge de Lima, marcado por uma sólida e reconhecida experiência literária, correrá o mundo, sendo admirado e influenciando tantos outros poetas. Viriato da Cruz, angolano, é um desses poetas que buscaram dialogar com Jorge de Lima. Não faltam, na cena literária de Viriato da Cruz, referências à questão social, racial e de dominação, temas tão caros à produção literária do poeta alagoano, como, por exemplo, em seu poema “Mamá Negra”, cujo flagrante diálogo com o poema “Olá Negro”, demonstra-nos a influência de Jorge de Lima nas literaturas modernas africanas lusófonas. Assim, este trabalho pretende mostrar a existência de afinidades entre as produções poéticasde Jorge de Lima e de Viriato da Cruz, a partir da análise de seus poemas, evidenciando diálogos interculturais, quais sejam, formação histórica, questões étnicas, sincretismos religiosos, intertextualidades literárias, todosconstantes do imaginário criador de dois grandes representantes das literaturas brasileira e angolana, unidas pelos laços comuns de nações colonizadas por Portugal.

VANESSA CARDOZO BRANDÃO

UFMG

A AVENTURA DO SUJEITO, A AVENTURA LITERÁRIA: um olhar sobre contemporaneidade da obra de José Saramago

Palavras-chave:

José Saramago, Literatura Comparada, Subjetividade e Literatura, Sujeito por Vvr, Destinerrância

Resumo:

Apesar de, como consagrado pela fortuna crítica, a obra de José Saramago apresentar sua visão de mundo com clara defesa de ideais humanistas em torno de um projeto ideológico, nossa leitura busca destacar outro aspecto: o modo como a sua escrita constrói-se de forma a convidar o leitor a questionar as certezas e “verdades” construídas na e pela linguagem. Neste sentido, a posição de Saramago aponta para uma contradição. Por um lado, é notável a defesa de uma visão de mundo. Por outro, a abertura do processo interpretativo de um texto que se coloca como “verdade”, mas sabidamente verdade de um sujeito em construção na esfera discursiva, de um determinado ponto de vista – portanto, verdade que é ela mesma uma variação (segundo o movimento do perspectivismo barroco). Posição que, ao contrário de levar a um fechamento de sentido, amplifica as possibilidades de leitura crítica e convida o leitor à sua interpretação e atualização contínua em um processo participativo de leitura que os textos de Saramago solicitam como posição de seu leitor-modelo. Assim, nessa crítica do projeto literário saramaguiano, várias obras são chamadas à análise de modo a evidenciar como o texto estabelece uma forma narrativa que parece recompor na esfera da ficção uma relação entre sujeito-autor e sujeito-leitor, que dialogam no jogo da construção da própria história narrada. Parte-se da perspectiva filosófica de Derrida e Blanchot, que percebem no descentramento do sujeito uma posição filosófica contemporânea do homem que se coloca em questão diante do mundo e afirma antes a incerteza e a abertura ao inesperado, em lugar da verdade cristalizada e absoluta da lógica ocidental. Procura-se perceber como a posição subjetiva em Saramago leva a um questionamento filosófico através da literatura: presta-se à colocação de dúvidas, antes que à afirmação. Nos diversos textos selecionados (romances, crônicas e conto), através da temática da viagem e sua recorrência na obra de Saramago, buscaremos apontar como essa figura aparece não apenas enquanto tema, mas ainda como forma de escrita modelar na obra do autor e, buscando perceber a presença de um modelo de subjetividade precária e aberta ao mundo, contaminada pela relação não apenas com pessoas, mas também com animais, objetos, lugares. Como pretendemos mostrar, o ideal de humanidade parece ser atravessado, em Saramago, não apenas por uma relação de comunidade com os homens, mas ainda com espaço e mundo que nos rodeiam.

VERA LÚCIA FOLLAIN DE FIGUEIREDO

PUC-Rio

Depois do futurismo: a hegemonia do presente

Palavras-chave:

Futuro, Vanguarda, Presente, Arte, Mercado

Resumo:

Foi o ideal de transformação radical da realidade que alimentou o sonho da revolução estética das chamadas vanguardas históricas do início do século XX. Ao longo da segunda metade do século passado, entretanto, passou a ser consenso que o período da utopia estética se encerrou, isto é, que o radicalismo da arte que investe na mudança do mundo tornou-se obsoleto. O artigo discute, então, a ideia desposada por teóricos contemporâneos de que a anulação da distância entre arte e vida, proposta pelas vanguardas históricas, teria sido realizada pela indústria cultural, ou seja, de que, ironicamente, teria sido o capitalismo, não o construtivismo ou o surrealismo, que integrou a experiência estética e a cotidianidade.

VICTOR AZEVEDO

UFRJ

Nuno Júdice e o prolongamento das estratégias vanguardistas

Palavras-chave:

Intermidialidade, Literatura portuguesa contemporânea, Picturalização

Resumo:

O prolongamento de determinadas estratégias vanguardistas seria uma das tendências da literatura contemporânea na visão do ensaísta Richard Murphy (1999), por entender que o sublime pós-moderno somente se instaura pela dessublimação da obra de arte, ou seja, por meio do combate da “criação de ilusões compensatórias, de formas consoladoras ou de imagens de harmonia”. Baseado nessa percepção, o trabalho se propõe a analisar o caleidoscópio delirante do escritor português Nuno Júdice, em seu romance O anjo da tempestade (2004), cujas ilustrações impressas no livro e as écfrases, relacionadas às imagens impressas e às descrições capazes de se tornarem formas “picturalizáveis”, são apresentadas de maneira dessublimada.

VINCENZO ARSILLO

Università Ca' Foscari - Venezia

O barroco cinemático: para uma ideia de poesia e de Brasil em Giuseppe Ungaretti

Palavras-chave:

Vanguarda, Brasil, Ungaretti, Poesia, Poética, Futurismo

Resumo:

Vanguarda e consciência do barroco são, na poesia e na poética de Ungaretti, marcos fundamentais. E, nos anos brasileiros do poeta italiano, estes dois elementos se juntam de forma  inesperada e criadora, gerando uma ideia de poesia totalmente renovadora.

VINCENZO RUSSO

Università degli Studi di Milano

O Futuro ferrugento do Futurismo

Palavras-chave:

Modernismo Português, História, Futuro, Almada Negreiros, Ensaismo

Resumo:

A ideia do paper surge de uma perplexidade crítica perante a reflexão-não reflexão que o primeiro Modernismo Português e nomeadamente o “ensaismo” de Almada Negreiros e Fernando Pessoa desenha acerca da ideia de Futuro, o tempo histórico por excelência do Futurismo.  O Futurismo italiano foi uma máquina que encarnou (permitem-me o oxímoro) a perceção de que o Futuro – não como dimensão natural da mente humana, mas como modalidade de perceber e imaginar, como modalidade da espera e da esperança – seria o tempo da Modernidade. Se é verdade que o verbo latim sperare  (como aliás em português) contêm a dupla etimologia de “espera” e de “esperança”, é na raiz indo-europeia “spe” que já se encontra uma dupla ressemantização que implica quer um tempo de expetativa no futuro, quer uma ideia de tensão, de extensão. Foi também pela mitologia Futurista que se propagou “aceleradamente” dentro e fora da Europa que o século XX acreditou muito na Futuro e na própria ideia de Futuro. Um Futuro, diga-se de passagem, que se foi esgotando em poucas décadas, ou para retomar o título da comunicação, se “enferrujou” no breve século XX, se por exemplo tomamos como o fim do Futuro modernista o slogan “No Future” gritado pelo movimento punk já na década de 70. Mas, como é bem sabido, o futuro não acaba nunca. Simplesmente, o século foi incapaz de o imaginar. Novamente. O gesto de Almada Negreiros «o modernólatra empenhado na “consciência exacta da actualidade”» é o de constatar que «o passado “está fatalmente em nós”, não como anulação da vivência presente, mas antes gérmen do futuro, ponto convergente de todos os tempos» (Silva, 1987: 342). O objetivo portanto será o de mapear, dentro desse “futurismo historicista” português, a percepção diferente que um Modernismo da periferia europeia vai elaborando como projetualidade e narração (também utópicas) de tempos históricos que se cruzam em nome de uma “outra Modernidade” cuja finalidade não é apenas “arracar a felicidade aos dias futuros” como pretende o Futurismo Russo.

VIVIANE VASCONCELOS

UERJ

“Como os manifestos hão de sobreviver ao século XXI?”: a  atualidade de Almada Negreiros e de Mário de Andrade

Palavras-chave:

Almada Negreiros, Mário de Andrade, Manifesto.

Resumo:

A pergunta que faz parte do título deste trabalho é um questionamento do historiador Eric Hobsbawm que está inserido no texto “Manifestos”, primeiro ensaio da coletânea “Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX”, última obra do historiador. De certa forma, é a pergunta que também orienta a reflexão acerca do “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX”, de Almada Negreiros, como também de alguns trechos de “A Escrava que não é Isaura”, de Mário de Andrade. Como é possível pensar em aproximações entre os dois textos a partir das visões sobre a arte que buscam provocar, politicamente, o pensamento de uma determinada época? Mesmo não sendo a obra do escritor brasileiro declaradamente um manifesto, um dos objetivos é compreender como os dois textos são capazes de oferecer, no âmbito da forma e da linguagem, respostas à questão proposta por Hobsbawm, principalmente porque não só propõem um novo caminho estético e ideológico, mas porque abrem diálogos que permitem a reflexão, por exemplo, sobre o papel do artista e da arte também na contemporaneidade. Em outras palavras, os dois autores, por caminhos distintos, têm uma consciência da função social que a arte e a literatura exercem. Algumas passagens da obra de Mário de Andrade revelam sua tentativa de explicação sobre a poesia que ultrapassa um viés estético. Essa percepção, no caso de Almada, está ancorada no discurso de mudança proposto por meio da análise da realidade nacional. O manifesto, que foi publicado inicialmente no único número da revista Portugal Futurista, não é o único assinado por Almada na mesma edição, mas é o que contém uma crítica severa às gerações anteriores e à cultura portuguesa.  Ao renovarem a história, os dois textos contribuem também para uma investigação acerca das características do manifesto, pois permitem, nas suas respectivas estruturas, uma avaliação do futuro das artes e da permanência ou não de determinadas perspectivas sobre política e cultura no século XXI.

WAGNER FREDMAR GUIMARÃES JÚNIOR

UFMG

Vanguarda e crítica social em Marco Zero, de Oswald de Andrade

Palavras-chave:

Oswald de Andrade, Marco Zero, Vanguardas, Crítica social

Resumo:

O ano de 1933 marca uma mudança de rumo na trajetória de Oswald de Andrade. Sob nova orientação ideológica, após aderir dois anos antes ao Partido Comunista, o escritor assume também uma nova concepção acerca do papel do intelectual na sociedade e passa a produzir obras comprometidas com os problemas do país. Durante a década de 1930, publica três peças teatrais nessa linha e se dedica ao projeto do romance mural Marco Zero (iniciado em 1933), com o qual busca produzir uma literatura participativa e crítica ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Para a realização do romance, sem abrir mão das conquistas de técnicas e procedimentos artísticos do Modernismo, Oswald se apoia nas vanguardas de orientação socialista (dentre as quais o Futurismo Russo), que articulavam pesquisa estética e concepções ideológicas revolucionárias e davam um sentido social e político à arte, entendida como instrumento para a construção do futuro. A partir de uma perspectiva criticamente armada, o romance representa as contradições do processo de modernização capitalista em curso no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Até os dias de hoje, Marco Zero vem sendo tratada como ‘obra menor’ pela crítica e historiografia literárias, avaliada negativamente a partir da comparação com os romances anteriores do autor, Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), e não de suas próprias características. A principal tendência encontrada na crítica entende que a obra é falha porque nela teria havido a renúncia à linguagem radical e inventiva (vanguardista) encontrada nesses livros, sendo que a adesão de Oswald ao romance social teria resultado em excessiva interferência ideológica e prejudicado a boa estética alcançada anteriormente. Diante disso, contrariando a crítica, o presente trabalho se propõe a analisar Marco Zero demonstrando que não há renúncia ao trabalho com a linguagem e que a obra resulta da mobilização de sofisticados recursos das vanguardas europeias que, aclimatados, representam criticamente a realidade brasileira, significando um salto qualitativo em sua obra.

 

ORGANIZAÇÃO

EXPOSIÇÃO





PARCEIROS E APOIOS